OS MISTÉRIOS POR TRÁS DA ONDA VERDE

A busca pela melhoria da imagem frente à sociedade tem levado muitas empresas a se denominarem autossustentáveis. No entanto, o conceito de sustentabilidade é mais complexo do que se imagina, englobando muito mais aspectos do que o uso de matérias-primas renováveis e, portanto, precisa ser analisado criticamente. Será que as empresas são realmente sustentáveis?

Atualmente, é cada vez mais comum ver empresas que se autodenominam sustentáveis. Dentro desse contexto, a indústria química em geral, que é geralmente associada ao oposto de sustentabilidade, tem particularmente concentrado esforços em melhorar sua imagem diante da sociedade, buscando mostrar que está buscando alternativas para reduzir os impactos ambientais gerados por seus processos, bem como redução de recursos naturais consumidos.

Essa tentativa por parte das empresas de associar sua imagem à ideia de sustentabilidade, ou ainda, “verde”, embora válida, tem diversas nuances que, muitas vezes, não são consideradas e que se sustentam em informações pouco precisas espalhadas na grande mídia. O conceito de sustentabilidade não é tão simples quanto pode parecer à primeira vista e engloba, por si só, outros conceitos que, se não considerados, podem levar a interpretações e conclusões errôneas. A indústria química em geral geralmente tem uma reputação bastante ruim entre a população.

O primeiro conceito muito importante quando se fala em sustentabilidade é o chamado ciclo de vida de um produto. Ao pensarmos no impacto que determinado processo gera no meio ambiente, intuitivamente, tendemos a associá-lo ao descarte do produto gerado. Esse é um dos motivos pelos quais os plásticos são conhecidos como os vilões do século XXI e as indústrias petroquímicas têm uma imagem bastante negativa no quesito sustentabilidade e meio ambiente.

No entanto, esse conceito, embora amplamente divulgados na mídia, representa uma visão rasa, pois não leva em consideração diversos outros aspectos que, muitas vezes, não são óbvios e por isso precisam ser analisados com atenção e com olhar crítico. Na realidade, para avaliar o impacto ambiental de determinado produto, é preciso considerar toda a sua cadeia produtiva, desde a matéria-prima, passando pelo processo de produção e uso, até a disposição final. No caso dos plásticos, por exemplo, embora o descarte ainda seja um problema, principalmente quando feito de forma incorreta, sendo jogado em rios e mares, eles trazem muitas vantagens em termos ambientais. A principal vantagem dos plásticos é a sua baixa densidade, que reduz o peso a ser transportado, reduzindo gastos com combustível e, consequentemente, a poluição.

Na verdade, a ideia de sustentabilidade está intimamente ligada ao conceito de Química Verde. A Química Verde é, basicamente, um conjunto de princípios que estabelecem práticas que devem ser adotadas para reduzir os impactos ambientais. Entre esses princípios, estão o uso de matérias-primas renováveis e a redução do uso de solventes. No entanto, é impossível que um processo siga todos os princípios da Química Verde, e a ideia é adotar o máximo de princípios possíveis e combiná-los de forma a gerar o menor impacto ambiental. Para cada tipo de indústria e para cada tipo de processo, a melhor combinação dos diferentes princípios é diferente e cada caso deve ser avaliado. Existem diversos métodos, chamados métricas, desenvolvidos para medir o grau de “esverdeamento” de um processo. Esses métodos, que podem ser bastante complexos, levam em consideração o peso que cada um dos princípios tem em determinado processo.

Existe, ainda, um último conceito associado à ideia de sustentabilidade, mais conhecido e tratado há mais tempo, que é a ideia do “tripé”, em que a sustentabilidade é vista como um conjunto de práticas que englobam aspectos ambientais, sociais e econômicos e não apenas relacionadas a questões ambientais. Dentro desse contexto, muitas empresas, buscando tornarem-se sustentáveis, têm adotado atividades mais relacionadas à melhoria da vida na sociedade, começando pela qualidade de vida de seus colaboradores. Essas práticas muitas vezes são colocadas como responsabilidade social.

Como se pode perceber, sustentabilidade é um assunto que, embora bastante em destaque nos dias atuais, ainda é tratado de forma bastante superficial e envolve muitos aspectos que, muitas vezes, são desconsiderados pela maior parte da população. Por isso, quando se trata de tornar-se verdadeiramente sustentável, mais importante do que de fato melhorar a sua imagem frente à população, é que as empresas busquem entender os verdadeiros impactos que seus processos e produtos realmente causam no meio ambiente, ponderando as melhores alternativas para reduzir tais impactos, de acordo com os princípios da Química Verde.

 

Referências bibliográficas:

Sustentabilidade e responsabilidade social nas empresas brasileiras. Disponível em: <http://www.administradores.com.br/noticias/negocios/sustentabilidade-e-responsabilidade-social-nas-empresas-brasileiras/71278/>[Acesso em 13 de março, 2017].

TNO Report. Single use cups or reusable (coffee) drinking systems: an environmental comparison. 2007.

12 principles of Green Chemistry.American Chemical Society.Disponível em: <https://www.acs.org/content/acs/en/greenchemistry/what-is-green-chemistry/principles/12-principles-of-green-chemistry.html> [Acesso em 13 de março, 2017].

Clarissa Alves Biscainho

Trainee do setor acadêmico da BetaEQ e estudante da IFP School – França

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