COMO A GLICERINA PODE UNIR E BENEFICIAR INDÚSTRIAS NO BRASIL

Custos envolvendo o tratamento de efluentes e resíduos sólidos podem ser convertidos em ganhos econômicos e ambientais por meio da integração de ramos indústrias sem relação aparente.

Glicerina é um subproduto típico da cadeia de produção do biodiesel. Na reação de transesterificação, triglicerídeos reagem com metanol na presença de catalisador para produzir uma mistura de ésteres (biodiesel), gerando também o glicerol (solução contendo glicerina). Esta reação pode ser observada a seguir:

Figura 1: Reação de transesterificação para obtenção do biodiesel (Mota et al., 2009).

A glicerina proveniente da indústria do biodiesel pode ser comercializada em seu estado in natura ou em estágios simples de purificação. Neste caso, a glicerina é aproveitada na indústria de sabão, alimentos, bebidas, farmacêutica e cosmética. As dificuldades com essa estratégia surgem uma vez que a produção do biodiesel tende a crescer no Brasil. De acordo com a lei nº 13.623/2016 a percentagem de biodiesel no diesel brasileiro deve crescer até 10% em 2019 (PESQUISA FAPESP, 2012). As projeções de crescimento na produção de biodiesel e glicerol no país podem ser observadas a seguir:

Figura 2: Projeção da produção de biodiesel e glicerol (Vasconcelos, 2012).

Este crescimento previsto acompanha uma tendência internacional e gera como consequência um risco de baixa nos preços da glicerina.  Esta queda pode ser decisiva na forma como as correntes de glicerol em unidades de produção do biodiesel são tratadas. Uma vez que os custos com transporte e armazenamento do glicerol são relativamente fixos com o tempo, a comercialização da glicerina proveniente do biodiesel deixaria de ser competitiva e passa a ser tratada como resíduo. Com isso a indústria de biodiesel perderia ainda mais em eficiência ao lidar com a glicerina como um passivo ambiental e não como um recurso.

Variadas pesquisas tem se dedicado a beneficiar a glicerina em insumos e produtos estratégicos mais rentáveis. Uma dessas rotas de aproveitamento envolve a sua conversão catalítica em propilenoglicol, de maior valor agregado. A reação de conversão ocorre com hidrogênio na presença de catalisador e pode ser observada a seguir:

Figura 3: Reação de conversão da glicerina em propilenoglicol (AKIYAMA et al., 2009).

O propilenoglicol possui diversas aplicações: como excipiente e estabilizante de fármacos, produtos de higiene pessoal, solvente para corantes alimentícios flavorizantes, aditivo alimentar umectante, excipiente em óleos essenciais, anticongelante não tóxico, solvente para substância fotográficas, fixador para perfumes e como líquido de arrefecimento.

Seu aproveitamento na indústria farmacêutica é particularmente interessante. Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Farmoquímica e de Insumos Farmacêuticos (ABIQUIFI, 2016) e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA, RENAME, 2007), aproximadamente 22% dos medicamentos nacionalmente produzidos possuem propilenoglicol em sua composição. Metade dos medicamentos são considerados essenciais pela ANVISA. Já segundo o relatório estratégicos setorial do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) (MITIDIERI et al., 2014) a oferta nacional de insumos farmacêuticos vem dificultando a competitividade da indústria nacional.

Sustentabilidade costuma vir acompanhado com a noção de aumento em custos, especialmente no setor industrial. No entanto, estratégias de beneficiamento e aproveitamento de subprodutos vêm se provando uma solução viável e competitiva. A integração entre a indústria brasileira do biodiesel com o setor farmacêutico através do beneficiamento da glicerina representa o futuro para atuação de engenharia química interessados em impactar positivamente questões ambientais.

Referências Bibliográficas:

ABIQUIFI, Mercado. Disaponível em:< http://abiquifi.org.br/mercado_/>. Acessado dia 25 de março de 2017.

AKIYAMA, M., SATO, S., TAKAHASHI, R., INUI, K., YOKOTA, M., Dehydration–hydrogenation of glycerol into 1,2-propanediol at ambient hydrogen pressure. Applied Catalysis A: General. v. 371, p. 60–66, 2009.

MITIDIERI, T.L., PIMENTEL, V.P., BRAGA, C.A., PIERONI, J.P., Há espaços competitivos para a indústria farmoquímica brasileira? Reflexões e propostas para políticas públicas. BNDES Setorial 41, p. 43-78, 2014.

MOTA, J.A., SILVA, X.A., GONÇALVES, L.C., Gliceroquímica: novos produtos e processos a partir da glicerina de produção de biodiesel. Quím. Nova vol.32 no.3. São Paulo 2009. Disponível em:< http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-40422009000300008>. Acessado dia 24 de março de 2017.

RENAME, Relação Nacional de Medicamentos Essenciais. 5.ª edição Série B. Textos Básicos de Saúde, 2007.

VASCONCELOS, Y., Resíduos bem-vindos (Subproduto do biodiesel pode ser usado para suprimir poeira de vagões de minério). Pesquisa FAPESP. p. 58-63. Junho de 2012. . Disponível em:http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2012/06/058-063_glicerina_196.pdf>. Acessado dia 24 de março de 2017.

 

Pedro Henrique Gonçalves Souza

Trainee do departamento de negócios sócios-ambientais da BetaEQ

 

 

 

 

 

Deixe aqui a sua opinião