RECICLAGEM: HOLOFOTES SOBRE UM CONCEITO ANTIGO

Por que sempre que falamos em reciclagem pensamos na reciclagem de plásticos? O quanto esse assunto, que, por vezes, parece já consolidado, está relacionado com as atuais políticas ambientais e como podemos contribuir para melhorar o cenário de descarte de resíduos?

A reciclagem não é um assunto novo, mas cada vez mais tem ganhado destaque, principalmente depois da Lei brasileira que institui a Política Nacional dos Resíduos Sólidos, que tem como principal foco o gerenciamento da logística dos resíduos sólidos urbanos, evitando o descarte inadequado desses resíduos, um dos maiores problemas ambientais enfrentados atualmente.

Nesse contexto, um dos principais aspectos enfatizados nessa política é a diferença entre “resíduo” e “rejeito”. Resíduo sólido é tudo aquilo que, depois de ser utilizado, ainda tem valor econômico e poderia ser reciclado ou reutilizado. Enquanto rejeito é aquilo que não pode mais ser reciclado ou reutilizado e precisa ser descartado. A ideia da PNRS é justamente estimular e reciclagem e reutilização dos resíduos o máximo possível e gerenciar o descarte apropriado dos rejeitos, evitando, assim, o descarte de produtos que ainda possuem valor, bem como redução do uso de recursos para a fabricação de novos produtos. Uma das principais medidas a ser implementada por essa lei é a chamada logística reversa, em que cada fabricante de um determinado produto é responsável por todo o seu ciclo de vida. Assim, o produto deve voltar ao fabricante para que seja reciclado ou reutilizado e então descartado de acordo com as normas estabelecidas pela mesma lei.  O papel da reciclagem inserido na missão dessa política é evidente.

Quando falamos em reciclagem, é comum pensarmos na reciclagem de plásticos. Mas o fato é que a reciclagem mecânica de plásticos não é assim tão fácil quanto se imagina. Primeiramente, nem todos os plásticos podem ser reciclados e a triagem dos diferentes tipos de plásticos, principalmente oriundos de lixo doméstico, pode ser complicada. Além disso, em resíduos plásticos domésticos, além da grande quantidade de tipos de plásticos misturados, esses plásticos geralmente contêm rótulos, adesivos, aditivos e contaminantes, que reduzem a eficiência do processo.

Na verdade, muitos outros materiais podem ser mais facilmente reciclados que os plásticos. Por exemplo, segundo dados de 2015 da Associação Brasileira de Alumínio (ABAL), desde 2001 o Brasil é campeão de reciclagem de latas de alumínio e cerca de 97,9% das latas que chegam ao consumidor são recicladas. Diferentemente dos plásticos, a coleta de alumínio é simples, o que explica o sucesso de sua reciclagem.

Ok, esses são os materiais que já são usualmente reciclados, mas existem outros que seriam recicláveis e que ainda não são ou sua reciclagem ainda é incipiente em termos numéricos?

A resposta é sim. Muitas vezes, no nosso dia-a-dia, temos produtos que poderiam ser valorizados e não nos damos conta disso. Além disso, precisamos entender que o termo “reciclagem” não implica que o material reciclado será utilizado para fabricar o mesmo tipo de produto que era originalmente: a reciclagem é um processo de transformação do material, que pode ser utilizado como matéria-prima para a fabricação de outros tipos de produtos, de ramos industriais totalmente diferentes.

Vamos começar com um produto que exemplifica bem essa situação: o óleo de cozinha. Quantas vezes não jogamos o óleo usado diretamente na pia, sem pensar nas consequências ambientais que isso pode causar? E se você vem com a desculpa de que é apenas uma pequena quantidade porque, afinal, você, da geração saúde, não come tanta fritura assim, pode parar! O descarte indevido de óleo é desastroso e, segundo dados, um litro de óleo pode contaminar mais 20.000 litros de água.

Por isso, antes de despejar o óleo na pia depois daquele pastelzinho de domingo à tarde, guarde-o corretamente em um recipiente e pense nas inúmeras opções de reutilização que esse óleo pode ter. Aqui vão algumas delas: produção de resinas e tintas, sabões e detergentes e até mesmo o famoso biodiesel, pois já existem processos de produção de biodiesel a partir de óleo usado. E para mostrar que essa inciativa não é restrita a inciativas de ONGs e cooperativas, a Cargill lançou, recentemente, um programa para a reciclagem de óleo de cozinha.

Outro produto que normalmente não reciclamos são os pneus. No Brasil, a maior parte dos pneus descartados retorna à indústria e é reformado em um processo denominado “recauchutagem”, sendo vendido novamente com menor custo ao consumidor. Apesar de ser uma prática comum e interessante, existe um limite para o número de vezes que um pneu pode ser recauchutado. Assim, os pneus que já atingiram esse limite, não podem ser mais reutilizados. Esse tipo de pneu é denominado inservível e é normalmente, simplesmente descartado. No entanto, os pneus demoram cerca de 600 anos para se decompor e sua queima libera compostos poluentes.

Os pneus que não podem mais ser reutilizados podem ser transformados em solados, tijolos de concreto e asfaltos e na indústria de cimento. No Brasil, o principal destino dos pneus inservíveis é justamente a indústria de cimento, o que vem sendo incentivado por leis estaduais.

Embora a reciclagem dos pneus inservíveis ainda seja vista como um desafio, segundo dados a Reciclanip, organização que atua na coleta e destinação de pneus, em 2012, 64% dos pneus inservíveis no Brasil foram utilizados como combustível em indústrias de cimento, enquanto o restante foi utilizado na produção de borrachas de vedação, pisos industriais e tapetes para automóveis.

 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DO ALUMÍNIO. Disponível em: <http://www.abal.org.br/>.[Acesso em 04 de abril de 2017].

CARGILL. Cargill lança programa de reciclagem de óleo de cozinha. Disponível em:<http://www.cargill.com.br/pt/noticias/NA3038000.jsp>.[Acesso em 05 de abril de 2017].

LATASA RECICLAGEM. Disponível em: <http://www.latasa.ind.br/pt/institucional/processo-de-fabricacao/>[Acesso em 04 de abril de 2017].

PENSAMENTO VERDE. Entenda como funciona a reciclagem de pneus. Disponível em <http://www.pensamentoverde.com.br/reciclagem/entenda-como-funciona-a-reciclagem-de-pneus-velhos/>[Acesso em 04 de abril de 2017].

POLÍTICA NACIONAL DE RESÍDUOS SÓLIDOS.Disponível em: <http://www.mma.gov.br/pol%C3%ADtica-de-res%C3%ADduos-s%C3%B3lidos>[Acesso em 05de abril de 2017].

PORTAL RESÍDUOS SÓLIDOS. Disponível em: <http://www.portalresiduossolidos.com/lei-12-3052010-politica-nacional-de-residuos-solidos/>[Acesso em 04 de abril de 2017].

RECICLANIP. Disponível em: <http://www.reciclanip.org.br/v3/>. [Acesso em 03 de abril de 2017].

Clarissa Alves Biscainho

Assessora de conteúdo da BetaEQ e estudante da IFP School- França

Deixe aqui a sua opinião