UMA VISÃO SOBRE RECURSOS HÍDRICOS

(Texto enviado pela Trainee Beta EQ e estudante da UNOCHAPECÓ, Máira Vieira)

Cada vez mais a relação entre o consumo de mercadorias e a demanda por água potável é enfrentada. Nesse sentido, é evidente que a disponibilidade deste líquido a cada dia está diminuindo, configurando, assim, um cenário onde recorrentes crises de escassez de água são comuns.

Mesmo sendo apenas uma pequena fração da água existente no planeta, a água doce reposta atualmente sobre os continentes supera em muito o necessário para os vários usos que a humanidade lhe atribui – desde o consumo para alimentação e para higiene pessoal até a produção de energia elétrica e bens de consumo. Porém, a água disponível para esses usos encontra-se irregularmente distribuída na superfície dos continentes. Sozinha, essa distribuição naturalmente irregular no mundo já contribui para uma situação em que parte significativa e crescente da humanidade seja submetida a uma situação de difícil acesso à água de qualidade.

Países cujos territórios estão mais próximos às áreas equatoriais geralmente possuem quantidades maiores de água disponível por habitante, devido à abundância de chuvas.  É o caso da América do Sul, da África Central e do sul da Ásia.

 

No entanto, a irregularidade na distribuição da água nos continentes é apenas uma das causas da crise mundial no abastecimento de água, que vem sendo anunciada e vivenciada nas últimas décadas. É preciso considerar em primeiro lugar, que a superfície sobre a qual a distribuição da água é politicamente fragmentada em Estados nacionais, cada um com soberania sobre seu próprio território. Em segundo lugar, é possível verificar que os habitantes de cada um desses Estados nacionais frequentemente possuem hábitos de consumo e estilos de vida distintos.  Como conseqüência, há diferenças nas quantidades e nas formas de utilização da água entre os países e mesmo entre as regiões dentro dos países. Tudo isso faz com que haja disputas pelo controle e o acesso aos recursos hídricos existentes, tanto entre países como dentro deles.

Entre os fatores que influenciam na maior ou menor demanda por água em um país ou região, destaca-se o grau de urbanização alcançado. Por si só, as áreas urbanas já são um desafio para o abastecimento adequado da população: ao concentrar grandes populações em espaços muito restritos. As cidades tendem a encontrar problemas para obter água em volume suficiente e com custos acessíveis sem esgotar os recursos hídricos das vizinhanças. Ao mesmo tempo, o desperdício da água nos domicílios, os vazamentos existentes nas redes de distribuição e a ocupação das áreas de mananciais próximas às cidades também contribuem para tornar as áreas urbanas grandes consumidoras dos recursos hídricos.

Outro fator que acirra as disputas pelos recursos hídricos é a poluição de rios e lagos e dos reservatórios subterrâneos de água. Esse problema está intimamente ligado à urbanização e à industrialização, já que muitas vezes é causado pelo desejo de esgotos domésticos e industriais não tratados nos corpos d’água próximo às grandes e médias cidades. Por isso, o gasto dos recursos hídricos pela poluição é mais intenso nos países desenvolvidos, mais industrializados e urbanizados. Porém, existem tendências preocupantes com relação aos países em desenvolvimento, pois muitos deles – inclusive aqueles com pouca ou média disponibilidade hídrica- estão passando por processos de urbanização e de industrialização muito rápidos.

Mais do que as cidades e as indústrias, a principal responsável pelo consumo de água em escalda mundial é a agricultura. Segundo a FAO, entre 59% e 70% da água renovável retirada do planeta é destinada à agricultura, principalmente para irrigação de lavouras. A irrigação permite incorporar vastas extensões de terras às atividades agropecuárias, que, de outra maneira, não poderiam ser cultivas, aumentando, assim, a produção mundial de alimentos e a oferta em regiões árias e semiáridas. O problema é que muitos dos métodos de irrigação mais utilizados desperdiçam muita água. Além disso, o uso de recursos hídricos na produção de ração destinada à pecuária e a à poluição dos corpos d’água pelo uso de agroquímicos são outros fatores responsáveis pela grande demanda de água nas atividades agropecuárias.

De modo geral, a pressão sobre os recursos hídricos aumenta conforme a renda dos habitantes de um território. Em grande parte do século XX, mais do que a multiplicação da população humana, foi a crescente produção de riquezas que impulsionou o aumento da pressão sobre os recursos hídricos. Para serem produzidas, diversas mercadorias necessitam de grandes volumes de água, que nem sempre pode ser reutilizada. Assim, o aumento de os níveis desiguais de consumo no mundo são responsáveis por grandes diferenças na demanda pelos recursos hídricos. Quando estes começam a ficar escassos, é grande a chance de surgirem disputas pela água.

Brasil neste cenário.

O Brasil possui em seu território a maior parte da bacia do maior rio em volume e extensão do planeta, o rio Amazonas. Quase todo o território nacional é atingido por chuvas abundantes durante o ano e há nele condições propícias à formação de redes de rios. Porém, apesar dessa situação de relativo conforto, o país sofre do mesmo problema que caracteriza a distribuição política da água em todo o mundo: a ocorrência dos recursos hídricos nem sempre coincide com a distribuição das populações humanas.

No caso brasileiro, quase 10% do território nacional estão localizados em uma região semiárida, que ocupa o norte de Minas Gerais e grande parte do interior e do litoral norte do Nordeste. Nessa região, as chuvas são escassas e mal distribuídas ao longo do ano, com rios que, em sua maioria, secam em alguma parte do ano. Além disso, trata-se de uma região bastante populosa e que está submetida à ocorrência mais ou menos freqüente de secas – longos períodos com chuvas muito raras ou quase inexistentes.

Por essas razões, é no semiárido que estão os maiores problemas relacionados à água no Brasil. No entanto, o estresse hídrico na região não pode ser atribuído apenas aos fatores físicos, mas também tem origens políticas: aproveitando-se de situações de calamidade pública geradas pelas secas, as elites políticas e econômicas locais conseguem importantes ajudas governamentais. Além da anistia de dívidas e da renegociação de empréstimos, é comum que a ajuda venha na forma de obras. O problema é que, muitas vezes, o dinheiro público é usado para a construção de açudes e para o desenvolvimento de projetos de irrigação que trazem benefícios apenas para os grandes produtores agrícolas. Ao mesmo tempo, as obras públicas são utilizadas como propaganda política pelas mesmas elites latifundiárias, que, assim, conseguem manter também o poder público local sob seu controle. Tudo isso configura a chamada “indústria da seca”, que eterniza os problemas relacionados à falta de chuvas.

Além do estresse hídrico devido a fatores ambientais e sociopolíticos no Semiárido, outros grandes desafios da gestão de águas no Brasil são garantir água de qualidade aos pequenos municípios e às zonas rurais mais isoladas, e abastecer as grandes metrópoles. O primeiro desafio depende da implantação e universalização das infraestruturas de coleta e tratamento de água em todas as regiões e estados do país, o que depende de investimentos e de políticas públicas adequadas. Por sua vez, a disponibilidade de água nas grandes cidades muitas vezes depende da preservação ou recuperação das áreas de proteção dos mananciais, frequentemente degradadas por causa da ocupação urbana desordenada e da conseqüente poluição.

Referências:

  1. http://brasildasaguas.com.br/educacional/a-importancia-da-agua/
  2. http://www.socioambiental.org/esp/agua/pgn/
  3. http://goo.gl/8tZBkS
  4. http://www.agencia.cnptia.embrapa.br/recursos/Pereira_Tocchetto_Tocchetto_multiusoID-0BPJmwgFwQ.pdf
  5. http://www.scielo.br/pdf/rbeaa/v5n3/v5n3a33.pdf
  6. http://www.agriambi.com.br/revista/v3n1/111.pdf

Assessor de conteúdo: Máira Vieira