[BIOTECNOLOGIA] – Entrevista com a engenheira química Mahara Melo

A engenheira química Mahara Melo fala sobre a produção do bioálcool a partir de resíduos agroindustriais e a produção de enzimas oxidativas.

aaSabe-se da abrangência e desenvolvimento da área biotecnológica no Brasil e no mundo. Visando ficar por dentro de uma das ramificações desta área, a então engenheira química Mahara Melo, que atuou nessa área durante sete anos, foi entrevistada. Em um de seus grandes projetos realizado durante a academia, Mahara se empenhou na produção de enzimas oxidativas por P. sajor-caju, um cogumelo, que neste caso, foi cultivado em água de imersão dos resíduos da bananicultura. O mais interessante nesse projeto é que além da otimização da produção de enzimas, ele visou também o reaproveitamento destes resíduos industriais, tão abundantes e até então sem uso, da região nordeste de Santa Catarina.

Beta EQ: Olá Mahara, conte-nos um pouco mais sobre você e sua formação.

M.M.: Sou graduada em Engenharia Química e Mestre em Engenharia de Processos, ambos pela UNIVILLE. Atualmente atuo como professora, lecionando a disciplina de química para alunos do ensino médio do Colégio dos Santos Anjos.

Durante toda minha graduação e mestrado participei ativamente de projetos de pesquisa como bolsista. Sempre atuei em projetos visando reaproveitamento de resíduos da região norte de Santa Catarina, no qual tem grande destaque o resíduo da bananicultura.

Beta EQ: Você disse ter trabalhado com pesquisa durante a academia. Comqual projeto você mais se identificou? Poderia nos explicar melhor?

 M.M.: Trabalhei durante a academia com dois projetos amplamente falando, um que visava produção de bioálcool a partir de resíduos agroindustriais e o outro no qual trabalhei por mais tempo e foi tema do meu TCC e dissertação de mestrado que visa a produção de enzimas oxidativas (lacase, manganês peroxidase e lignina peroxidase) por P. sajor-caju utilizando resíduo da bananicultura.

Beta EQ: Como funcionava esse processo?

M.M.: O propósito do projeto é de produzir enzimas oxidativas por rota enzimática, reduzindo seus custos de produção e ampliando desta forma sua aplicação no mercado. A exigência por processos sustentáveis vem abrindo portas para que as pesquisas em biotecnologia e bioprocessos cresçam cada dia mais. A redução dos custos de produção destas enzimas é uma forma de ampliar ainda mais o uso de enzimas em processos industriais, principalmente em setores onde o custo desses processos é um fator limitante de produção.

Beta EQ: Onde essas enzimas podem ser aplicadas? Elas podem trazer algum benefício direto para a sociedade?

 M.M.: As enzimas são amplamente utilizadas em diversos segmentos industriais como nas indústrias de detergente e cuidados pessoais, têxtil, papel e celulose, amido e biocombustível, alimentos e laticínios, panificação, bebidas, ração animal, biopolímeros, síntese orgânica e couro.

Nos últimos anos, uma série de processos industriais, ambientais e em química fina vem sendo consideravelmente aprimorados graças ao desenvolvimento da tecnologia enzimática, permitindo a utilização de biocatalizadores em conversão química com elevada eficiência. Como tecnologia voltada para a aplicação ambiental, enzimas livres ou imobilizadas, associadas ou não ao microrganismo produtor, podem ser empregadas com sucesso, in situ ou em biorreatores, na recuperação de áreas contaminadas e no tratamento de efluentes de alta complexidade ou contendo compostos xenóbicos, minimizando a geração de subprodutos e resíduos.

Beta EQ: Você acredita que a produção de enzimas a partir de resíduos pode ter um impacto ambiental, ajudando a reduzir esse volume de produto não utilizado?

MapaM.M.: A região nordeste de Santa Catarina é grande produtora de banana, sendo desta forma também, grande geradora de resíduos provenientes desta cultura, como estes são resíduos lignocelulósicos, podem ser reaproveitados em rotas biotecnológicas. Desta forma são resíduos de grande interesse para o processo desenvolvido, pois serve de substrato no cultivo de fungos do gênero Pleurotus para a produção de enzimas oxidativas como lacases, manganês peroxidases e lignina peroxidases sendo assim uma alternativa interessante com vistas à uma futura redução dos custos de produção destes biocatalisadores.

Considerando desta forma os aspectos ambientais, a vasta aplicação comercial destas enzimas e sua produção biotecnológica por fungos da classe dos basideomicetos, a capacidade do fungo Pleurotus sajor-caju em produzir estas enzimas utilizando resíduos agroindustriais (cascas de banana e água de imersão de palha de bananeira) na formulação dos meios de cultivo tem sido estudada.

Beta EQ: Que tipo de “bagagem” a pesquisa na área biotecnológica trouxe para você como profissional de engenharia química? Você diria que as áreas estão corelacionadas? E como você vê o desenvolvimento dessa área aqui no Brasil?

M.M.: A pesquisa na área biotecnológica é um campo que sempre me fascinou, tanto que trabalhei por quase sete anos nesta área e trabalharia por muito mais tempo sem pensar duas vezes.

Com a evolução da indústria no intuito de redução de custos dos processos e cada vez mais pensando na área ambiental a Engenharia Química aliada à pesquisa biotecnológica tem um futuro cada vez mais promissor. Atualmente existem programas de bolsas e estágios nas próprias empresas visando a pesquisa e valorizando os resultados obtidos na forma de produto final.

Vejo que ainda assim, falta uma parceria maior instituição de ensino – indústria no sentido de valorização dos trabalhos e pesquisas desenvolvidos pelos acadêmicos que muitas vezes acabam ‘morrendo’ dentro da universidade, não passando de uma pesquisa e um trabalho de conclusão de curso. Se estes resultados forem mais aproveitados, se mais projetos de incentivo à pesquisa forem criados e valorizados a Engenharia Química tem tudo para ser uma área em pleno crescimento.

Autora: Thaís Silva Teodoro/UNIVILLE

Assessor de Conteúdo: João Paulo Werdan (UFF)