O COMPLEXO CASO DA FOSFOETANOLAMINA SOB O VIÉS DA ENGENHARIA QUÍMICA

A fosfoetanolamina é um composto orgânico, naturalmente produzido pelo fígado e pelas células de alguns músculos do corpo e está presente em diversos mamíferos. Ela ajuda a formar as membranas celulares e possui ainda função antiproliferativa e estimula a apoptose, que seria uma “morte celular programada” – função sinalizadora para ajudar o sistema imune a ser eficiente na eliminação de células malignas. No entanto, ela é produzida em pouca quantidade.

0

Figura 1: Fosfoetanolamina (C2H8NO4P)

No final da década de 1980, o químico Gilberto Orivaldo Chierice, então professor do Instituto de Química de São Carlos (IQSC), hoje aposentado, conseguiu sintetizar uma versão artificial desse composto juntando monoetanolamina com o ácido fosfórico. Dessa forma, em teoria, a ingestão da fosfoetanolamina sintética, em maiores quantidades do que aquelas que são produzidas pelo corpo, imita uma substância que existe no organismo e então sinaliza as células cancerosas para que o sistema imunológico as reconheça e as remova, o tornaria o sistema imune capaz de identificar e “matar” mais facilmente células tumorais, potenciando a cura do câncer.

1

Figura 2: Etapas do processo de desenvolvimento de novos fármacos, conforme Laurence et al (1997)

Por mais de 20 anos, o químico distribuiu gratuitamente e por iniciativa própria a fosfoetanolamina para diversos pacientes que, em sua maioria, relataram melhoras significativas e até a cura da doença. Uma portaria da USP, universidade a qual o IQSC é ligado, no entanto, proibiu em 2014 a distribuição do medicamento, justamente pela falta de testes, pesquisas, registro e autorização da Anvisa.

A universidade afirmou não possuir meios para a realização dos testes nem para a produção em larga escala. Desde então, diversas liminares foram concedidas pela justiça para permitir a pacientes o acesso ao medicamento. Contudo, a fosfoetanolamina não possui registro na Anvisa e, por isso, ainda não pode ser comercializada no Brasil.

PONTOS POSITIVOS

Além de todos os indícios de que a PEA é eficiente, o medicamento pode ser produzido a um baixíssimo custo, cerca de 10 centavos por cápsula. Isso tornaria o tratamento contra o câncer muito mais acessível, dispensaria o uso de toda a aparelhagem usada para quimio e liberaria muitos leitos hospitalares, uma vez que o paciente poderia ser tratado em casa. Depois de muita polêmica e pacientes entrando na justiça atrás de liminares para a obtenção da pílula, foi aprovado pelo Senado o projeto de lei que autoriza a produção, a venda e o uso da substância. Ao que tudo indica, se os efeitos forem realmente comprovados, teremos uma droga de autoria 100% brasileira, a um baixo custo e que salvará milhares de vidas.

De acordo com um estudo publicado pela Universidade de São Paulo recentemente, a eficácia antitumoral da fosfoetanolamina ultrapassa 89% de redução desses tumores, contra 67% da redução provocada por quimioterápicos (MENEGUELO, Renato).

Outro fator positivo da PEA são os baixos ou quase irrelevantes efeitos colaterais quando comparados aos efeitos ocasionados pelos tratamentos convencionais contra câncer, o que resulta no aumento da taxa de sobrevida dos pacientes. A PEA não causa alterações significativas, por exemplo, à plaquetas, não causa mielossupressão, caquexia, neovascularização, imunosupessão, anemia, neoplasias sistêmicas, nem quadros infecciosos sistêmicos graves que aumentam a morbidade e mortalidade dos pacientes em função do tratamento, todos esses efeitos colaterais são comuns em tratamentos quimioterápicos clássicos. Além de aumentar significativamente o número de glóbulos vermelhos e leucócitos, ou seja, o composto trata quadros anêmicos decorrentes do desenvolvimento e da disseminação de células tumorais e reduz drasticamente a formação da, “perigosa”, metástase.

Acredita-se que a fosfoetanolamina possa substituir ou combinar-se com terapias já existentes contra o câncer e outras doenças (sendo elas: neuro-degenerativas, autoimunes, neurológicas, endócrinas e cardiológicas), aumentando a eficácia do tratamento e diminuído a incidência de efeitos colaterais.

Apesar da droga ainda não possuir licenciamento pela Anvisa, devido a falta de testes em humanos e animais, muitas pessoas já fizeram o uso da droga “por conta própria” e obtiveram resultados satisfatórios, sem a apresentação de efeitos colaterais e com a diminuição ou extinção de tumores em pouco tempo.

PONTOS NEGATIVOS

Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), não há qualquer registro concedido ou pedido de registro para medicamentos com o princípio ativo fosfoetanolamina. Neste contexto, também não há em curso qualquer avaliação de projetos contendo a PEA para fins de pesquisa clínicas envolvendo seres humanos.

Essa substância não pode ser considerada um medicamento, pois os testes clínicos não foram realizados em seres humanos e não há comprovação científica que prove seu efeito no organismo das pessoas. Para que a substância seja considerada medicamento, é obrigatório que sejam realizados testes em humanos e posteriormente, aprovação na Anvisa. Por ter efeitos totalmente desconhecidos, não se pode fazer nenhuma avaliação de qualidade, segurança e eficácia do produto, podendo o uso do mesmo ser prejudicial ao paciente. Outro possível problema é que cada organismo pode reagir diferentemente a determinadas substâncias.

Um dos pontos mais críticos nas discussões sobre a liberação da produção e distribuição da fosfoetanolamina sintética, é que os idealizadores desse projeto não seguiram o procedimento padrão de estudos para desenvolvimento de novas drogas, ou seja, várias etapas cruciais para a comprovação da eficácia da droga não foram realizadas.

Além disso, com toda pressão política e social para que a fosfoetanolamina sintética apresente resultados positivos nos testes, as pesquisas financiadas pela indústria farmacêutica, por exemplo – onde há pressão financeira para que os resultados sejam favoráveis, – têm fortes indícios, ou seja, tem muito mais chances de apresentarem resultados positivos, em comparação com estudos independentes.

CONCLUSÃO

Diante as informações apresentadas, a fosfoetanolamina ainda não é um medicamento registrado no país. É uma substância química, presente em diversos processos de biossíntese no homem e em outras espécies, a qual ainda não foi submetida a testes clínicos para a comprovação de sua segurança e eficácia no tratamento do câncer. Conforme pesquisas, a ANVISA afirma que não apresenta registros ativos nem solicitações de registro sanitário para a comercialização da droga no país.

No caso de produtos farmacêuticos com finalidade terapêutica ou adjuvante, mesmo que não haja medicamento que contenha o princípio ativo registrado no país, entende-se que a legislação federal ainda permite a sua manipulação em farmácias por meio de fórmulas magistrais prescritas por profissionais habilitados (médicos e dentistas). O uso de um produto em seres humanos com baixa qualidade de evidências científicas pode apresentar risco à saúde do paciente. Nestas situações de incerteza, o médico deve avaliar em conjunto com o paciente as opções terapêuticas disponíveis e bem como a relação de custo efetividade e a segurança.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Portal Anvisa. Disponível em: <http://portal.anvisa.gov.br/wps/wcm/ connect/087adf004a38e24a8c7fcc4eff144ba1/NT_56_2015+SUMED+-+fosfoetanolami na.pdf?MOD=AJPERES>. Acesso em: 31/03/2016.

Revista Nature. Disponível em: <http://www.nature.com/news/brazilian-courts-tussle-over-unproven-cancer-treatment-1.18864>. Acesso em: 31/03/2016.

Gazeta do Povo. Disponível em: <http://www.gazetadopovo.com.br/saude/ fosfoetanolamina-e-o-longo-caminho-para-a-cura-do-cancer-3elbbssabxvrcd6dzk794dr 6p>. Acesso em: 31/03/2016.

Jornal Quatro Marcos. Fosfoetanolamina: a Esperança Proibida. Disponível em:<http://www.quatromarcosnoticias.com.br/artigo/fosfoetanolamina-a-esperanca-proi bida>. Acesso em: 27/03/2016

Gazeta Online. Fosfoetanolamina sintética cura câncer, afima pesquisador. Disponível em: <http://www.gazetaonline.com.br/_conteudo/2015/10/noticias/cidades/3911934-fosfoetanolamina-sintetica-cura-o-cancer-afirma-pesquisador.html>. Acesso: 21/03/2016

Uol. Senado aprova ‘pílula do câncer’ após resultado negativo em teste. Disponível em:<http://m.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2016/03/1752997-senado-aprova-pilula-do-cancer-apos-resultado-negativo-em-teste.shtml>. Acesso em: 27/03/2016

MENEGUELO, Renato. Efeitos antiproliferativos e apoptóticos da fosfoetanolamina sintética no melanoma B16F10. 2007. Dissertação (Mestrado em Bioengenharia) – Bioengenharia, University of São Paulo, São Carlos, 2007. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/82/82131/tde-12022008-135651/>. Acesso em: 01/04/16.

Fosfoetanolamina sintética. Conheça a história da substância que promete a cura do câncer. – Disponível em: http://ftimaburegio.jusbrasil.com.br/noticias/243826237/fosfoetanolamina-sintetica-conheca-a-historia-da-substancia-que-promete-a-cura-do-cancer

Entenda o que é a Fosfoetanolamina sintética. – Disponível em: http://www.tuasaude.com/fosfoetanolamina-sintetica/

Fosfoetanolamina: a droga brasileira que promete curar o câncer. – Disponível em: http://www.hypeness.com.br/2016/01/fosfoetanolamina-a-droga-brasileira-que-promete-curar-o-cancer/

CCATES. Fosfoetanolamina no tratamento de câncer. 2015. Disponível em: <http://www.ccates.org.br/content/_pdf/PUB_1448318486.pdf>. Acesso em: 10 abr. 2016.

FELIPPE JUNIOR, José. Metabolismo da Célula Tumoral – Câncer como um Problema da Bioenergética Mitocondrial: Impedimento da Fosforilação Oxidativa – Fisiopatologia e Perspectivas de Tratamento. 2016. Disponível em: <http://www.medicinabiomolecular.com.br/biblioteca/pdfs/Cancer/ca-0369.pdf>. Acesso em: 10 abr. 2016.

Fosfoetanolamina, a droga do câncer. 2016. Disponível em: <http://midia.apmp.com.br/arquivos/pdf/artigos/2015_Fosfoetanolamina.pdf>. Acesso em: 10 abr. 2016.

FIGURA 1: CCATES. Fosfoetanolamina no tratamento de câncer. 2015. Disponível em: <http://www.ccates.org.br/content/_pdf/PUB_1448318486.pdf>. Acesso em: 10 abr. 2016.

FIGURA 2: CCATES. Fosfoetanolamina no tratamento de câncer. 2015. Disponível em: <http://www.ccates.org.br/content/_pdf/PUB_1448318486.pdf>. Acesso em: 10 abr. 2016.

AUTORES:

João Paulo Werdan Estephaneli (UFF)

Thaís da Rosa Passos (FURG)

Thaís Silva Teodoro (UNIVILLE)

Roberta Nuñez (FURG)

Filipe Anderson D’Abreu Dias (UNIFACS)

Laísa Zanon (UFRRJ)