BORRACHA NATURAL A PARTIR DE DENTE-DE-LEÃO: A QUERIDINHA DA VEZ

Você já parou para pensar na importância da borracha no nosso dia-a-dia? Em um mundo cada vez mais dominado pelos plásticos, é normal que esqueçamos desse composto tão importante que é a borracha. E, aqui, enfatizaremos a importância da borracha natural.

Fonte: basf.com

A indústria de pneus é responsável pelo consumo de cerca de 70% da produção mundial de borracha natural e isso acontece porque a borracha sintética não consegue substituir totalmente a borracha natural.

Atualmente, a principal fonte de borracha natural é uma árvore conhecida como Hevea, a famosa seringueira. No entanto, esta árvore que já foi tão abundante no Brasil e que hoje cresce principalmente na Malásia, tem alguns problemas associados ao seu cultivo. Dentre eles, podemos destacar a susceptibilidade a pragas e crescimento apenas em climas tropicais, o que torna diversos países dependentes da borracha proveniente de países com clima adequado para seu crescimento. Todas essas questões tornam os preços bastante oscilatórios e não agradam, principalmente, países europeus e os Estados Unidos, que precisam ficar dependentes.

Para resolver a questão, enquanto algumas empresas como a Goodyear tentam otimizar o processo de produção de borracha sintética – para utilizar cada vez menos borracha natural na composição de seus pneus, a maior parte das empresas segue outro caminho. Uma das principais tendências hoje é a busca por matérias-primas alternativas para a produção de borracha natural. Uma das plantas que estão mais em voga em termos de pesquisas e em termos industriais é o dente-de-leão (em inglês, Dandelion).

Muitas pesquisas têm sido feitas tanto nos Estados Unidos quanto na Europa em relação à produção de borracha natural a partir dessa planta, o que é um desafio, pois não se trata apenas da otimização do processo em si, mas a chave para a competitividade do processo pode estar na parte do cultivo propriamente dita. Existem pesquisas com plantas geneticamente modificadas e híbridos para a produção de raízes maiores.

A otimização da parte agrícola ainda está em fase de estudo e nem todos os parâmetros do processo foram estudados e completamente compreendidos em relação ao seu impacto na quantidade de borracha produzida. Apesar do caráter ainda em fase de pesquisa, muitas empresas de pneus e de especialidades químicas estão fortemente interessadas no assunto. Recentemente, a BASF anunciou a produção de pneu com borracha natural obtida a partir de dente-de-leão (Saiba mais aqui). Além disso, a produção de borracha natural a partir de dente-de-leão tem sido discutida a nível de União Europeia.

Aliás, na Europa, a questão é ainda mais crítica, devido ao pouco espaço disponível para grandes cultivos, com exceção de algumas regiões como Espanha e Itália. Por isso, as principais vertentes de pesquisa que têm sido desenvolvidas na Europa para o cultivo do dente-de-leão é o cultivo em 3D, em cultura hidropônica. Há um grande potencial econômico nesse tipo de cultivo, mas muita pesquisa ainda precisa ser feita. O cultivo em 3D já é realizado para alguns tipos de cultura, como a alface. Basicamente, são várias colunas com vários “pratos” onde as plantas são colocadas lado a lado.

E, para mostrar que esse interesse não é apenas a nível de pesquisa de bancada, existe uma grande cooperação atualmente entre a França e os Estados Unidos. Pessoas com diferentes backgrounds de ambos os países, como pesquisadores, professores, estudantes e administradores estão concentrando esforços (e dinheiro!) em um projeto para desenvolver uma planta piloto para a produção de 100 kton/ano de borracha natural a partir da Dandelion. A principal referência é a pesquisadora Katrina Cornish, da The Ohio State University, que tem estufas com cultivo de dente-de-leão em cultura hidropônica em tecnologia 3D em pequena escala. O objetivo é estudar os parâmetros que influenciam e que podem ser otimizados em termos de cultivo da planta utilizando cultura hidropônica em arranjo 3D. As fotos abaixo foram tiradas numa das estufas mantidas pela Dr Cornish. A foto da esquerda mostra a planta com a maior raiz já obtida pela pesquisadora após hibridização e a foto da direita a cultura hidropônica em 3D.

Fotos tiradas na Universidade de Ohio (Fonte: acervo do autor, reprodução proibida)

Mas é claro que o cultivo é só a primeira parte de um longo processo até a obtenção da borracha a ser vendida para a indústria de pneus. Além do cultivo em si, a pesquisadora tem, ainda, uma pequena planta piloto para a produção de borracha natural, envolvendo os principais processos necessários desde a secagem das raízes até a produção da borracha propriamente dita, incluindo processos de extração para a obtenção de uma borracha com a pureza adequada para ser comercializada. A pureza exigida depende, claro, da aplicação final. Para pneus, a pureza exigida é menor do que aquela exigida para aplicações farmacêuticas.

Outra vantagem é que, durante o processo de extração de borracha natural a partir de dente-de-leão, um dos principais subprodutos obtidos é a inulina, que também tem sido alvo de interesse e pode agregar valor ao processo.

Agora você já sabe um pouquinho sobre as novas tendências em relação à borracha natural. É claro que ainda há muito a ser otimizado, principalmente para tornar o processo viável em larga escala. Porém, a ideia é que combinando do cultivo em 3D, cultura hidropônica, desenvolvimento de plantas com maior teor de borracha, bem como a otimização do processo para extração da borracha das raízes propriamente dita levem a um processo vantajoso economicamente e que possa substituir a borracha natural obtida a partir de Hevea.

 * Se você quiser entender um pouquinho mais sobre como isso funciona, os links abaixo são de vídeos que mostram um pouco mais sobre esse tipo de cultivo. O primeiro é sobre uma estufa para o cultivo de alface na Holanda e os outros dois são animações que mostram esquematicamente como é a automação desse tipo de cultivo.

[1] https://www.youtube.com/watch?v=QH2t632s6I8

[2] https://www.youtube.com/watch?v=Ly7Vb89Fbsg

[3] https://www.youtube.com/watch?v=5oS3mLtU2Kg

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FINLAY, MARK R. Growing American Rubber – Strategic Plants and the Politics of National Security. Studies in Modern Science, Technology and the Environment Series. New Brunswick: Rutgers University Press, 2009.

European programs.Disponível em: https://ec.europa.eu/programmes/horizon2020/en/news/home-grown-rubber-keep-tyres-turning

DRIVE4EU e EU-PEARLS. Disponível em: http://phys.org/news/2016-06-rubber-russian-dandelionsa-european-alternative.html

WageningenUniversity in NL. Disponível em: https://www.wageningenur.nl/en/newsarticle/EU-project-demonstrates-economic-feasibility-of-rubber-and-inulin-production-in-Russian-dandelion.htm

The BelgiumAgronomicInstitute. Disponível em: https://www.rtbf.be/info/regions/detail_de-caoutchouc-naturel-100-belge-bientot-chez-nous?id=8818444

AGRADECIMENTOS

A maior parte das informações contidas no texto foram obtidas diretamente de pessoas envolvidas no projeto, tanto dos Estados Unidos quanto da França. Agradecimentos à Katrina Cornish (The Ohio State University), Wil Hemker, Barry Rosenbaun e GorsonSchorr (Research Foundation of the University of Akron), Bruno Pary e Claude Janin (França).

Clarissa Alves Biscainho

Trainee do setor acadêmico da BetaEQ e estudante da IFP School – França