UNICAMP APONTA FRAUDE EM SUPLEMENTO DA ‘PÍLULA DO CÂNCER’

Desde o ano passado ela passou a ser comercializada como suplemento alimentar e não mais como remédio

A polêmica “pílula do câncer” (fosfoetanolamina) que foi proibida de ser vendida como medicamento no combate a doença, por falta de eficácia comprovada, é foco de uma nova polêmica. Desde o ano passado ela passou a ser comercializada como suplemento alimentar e não mais como remédio o que não é proibido pela legislação.

Porém, pesquisas feitas pelo Instituto de Química da Unicamp constataram que o produto vendido a R$ 300 não traz nenhum traço da substância. Um laudo do Instituto Geral de Perícias, solicitado pela Polícia Civil e recém-divulgado constatou a inexistência de fosfoetanolamina em cápsulas de suplemento da empresa Quality Medical Line vendida pela internet.

“O consumidor pode estar sendo vítima de fraude a partir de um mesmo produto”, afirmou o professor Luiz Carlos Dias, coordenador responsável pelas análises das cápsulas. O suplemento alimentar é vendido com a promessa de melhorar a qualidade de vida, além do desempenho de células de defesa do organismo e o equilíbrio das funções metabólicas do corpo, e implicitamente, vende a esperança para a cura do câncer. Porém, nas cápsulas analisadas não havia a substância.

A fosfoetanolamina passou a ser estudada no Brasil nos anos 90 pelo químico Gilberto Orivaldo Chierice, do Instituto de Química da USP de São Carlos. Depois de pesquisas, o pesquisador passou a promover, há alguns anos, a distribuição de cápsulas da substância a portadores de diversos tipos da doença.

Diante da repercussão da terapia e da oposição da comunidade científica, que não via indicativos conclusivos nas pesquisas realizadas pelo grupo de Chierice, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) criou, em 2015, uma equipe de trabalho para realização de estudos que atestassem a segurança e eficácia da substância. Apesar dos pareceres contrários à fosfoetanolamina emitidos pelo MCTI e por entidades ligadas à saúde, o governo Dilma promulgou lei autorizando seu uso. Logo depois, em maio de 2016, o Supremo Tribunal Federal (STF) revogou a lei, pondo fim à controvérsia envolvendo a chamada “pílula do câncer”.

A partir de então, a substância começaria a ser comercializada como suplemento alimentar, pela empresa Quality Medical Line, sediada em Miami (EUA) e constituída por sócios brasileiros, entre os quais dois ex-integrantes do grupo de Gilberto Chierice: o médico Renato Meneguelo e o bioquímico Marcos Vinicius de Almeida. A denúncia de que o suplemento não contém fosfoetanolamina, partiu de um ex-sócio da Quality, Humberto Silva de Luca, que deixou a empresa por desentendimentos.

Para confirmar a denúncia, o GDI solicitou as análises ao professor Luiz Carlos Dias devido à sua experiência anterior com a fosfoetanolamina. Os resultados, segundo o pesquisador da Unicamp, mostraram que as cápsulas do lote examinado não continham a substância: 96% do conteúdo era de excipientes usados para dar cor e consistência à mistura, comuns em medicamentos, mas desprovidos de quaisquer efeitos terapêuticos benéficos.

Os 4% restantes eram de fosfato de monoetanolamônio, derivado da reação química entre ácido fosfórico e monoetanolamina (matérias primas usadas na síntese da fosfoetanolamina). “Para mim foi uma surpresa muito grande”, disse o pesquisador.

Por conta da denúncia a Polícia Civil deflagrou a “Operação Placebo”, contra uma organização suspeita dos crimes de tráfico de drogas, organização criminosa e lavagem de dinheiro. Os policiais cumpriram diversos mandados de busca e apreensão, além do sequestro de cerca de 80 veículos e o bloqueio de 33 contas bancárias em Porto Alegre e cidades de sua Região Metropolitana. (Com informações de Carmo Gallo Neto/Jornal da Unicamp)

 

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