REAPROVEITANDO O BAGAÇO DO CAJU, UMA NOVA ALTERNATIVA DA AGROINDÚSTRIA

Cerca de 70% do pedúnculo (região que antecede a flor ou o fruto) de caju produzido no Brasil é desperdiçado devido ao curto período de safra e baixa estabilidade.
Por isso, pesquisadores da Embrapa Agroindústria Tropical testaram com sucesso uma nova alternativa que pode facilitar o aproveitamento do bagaço de caju, e outros materiais semelhantes em biorrefinarias. Eles conseguiram separar os componentes do material utilizando um líquido iônico.

Bagaço nutritivo

Cerca de 70% do pedúnculo de caju produzido no Brasil ainda é desperdiçado devido ao curto período de safra, à reduzida estabilidade pós-colheita e à pequena capacidade de absorção da indústria. Isso é muito, já que essa parte, conhecida como maçã do caju, corresponde a 90% do fruto. O bagaço de caju, que sobra do processamento do suco, apresenta açúcares, vitaminas e sais minerais. É rico em fibras e outros compostos com propriedades funcionais, além de ser fonte de polifenóis e carotenoides. Possuindo inúmeras possibilidades de aproveitamento desse material estão em estudo na Embrapa Agroindústria Tropical.

Reaproveitamento

Como todos os materiais lignocelulósicos(conjunto de macromoléculas orgânicas complexas), exigem um pré-tratamento para a separação da celulose dos demais componentes. Após essa liberação, a celulose pode ser quebrada em açúcares menores, então utilizados para a produção de diferentes moléculas dentro do conceito de biorrefinaria. O grande problema é que para pré-tratar o bagaço de caju, até agora, eram necessárias condições drásticas, como altas concentrações de reagentes, altas temperaturas e alta pressão. Os pesquisadores resolveram, então, testar como solvente uma espécie de sal líquido, conhecido tecnicamente como líquido iônico prótico, sintetizado na Universidade Federal do Ceará (UFC).

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As amostras que passaram pelo tratamento apresentaram rendimento de glicose muito superior ao apresentado pela maioria dos tratamentos aplicáveis ao bagaço de caju. Com a vantagem de esse líquido poder ser reaproveitado, pelo menos três vezes, diferentemente dos demais reagentes. Os pesquisadores acreditam que o solvente pode apresentar consideráveis vantagens ambientais e econômicas pela possibilidade de reutilização, uma hipótese que ainda deve ser avaliada em estudos posteriores. Os responsáveis pelo estudo também desejam testar o método com outros materiais lignocelulósicos. Segundo a professora Maria Valderez Ponte Rocha, do Departamento de Engenharia Química da UFC, é possível obter da celulose e da hemicelulose do bagaço de caju vários carboidratos de interesse. Um deles é a xilose, da qual se produz o xilitol, um edulcorante com poder calorífico menor que a sacarose, utilizado como adoçante em cremes dentais infantis e outros produtos. Outra possibilidade é o aproveitamento da glicose para a produção do 2-feniletanol, aroma utilizado pela indústria de perfumaria e alimentícia. Ainda utilizando-se o conceito de biorrefinaria, outra possibilidade é o aproveitamento da lignina, abundante no bagaço de caju. O material, que fica precipitado no líquido iônico, pode ser usado na produção de intermediários químicos e adsorventes (sólidos que retêm moléculas) e para gerar energia a partir de sua queima.

Poder econômico do caju

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O uso de um líquido iônico no pré-tratamento de material lignocelulósico para a produção de bioprodutos era, até então, uma hipótese considerada improvável. Isso porque as versões comerciais desses reagentes normalmente são caras, o que inviabiliza aplicações industriais. O reagente utilizado no estudo é um líquido iônico que, em escala laboratorial, estimou-se 50 vezes mais barato que os similares disponíveis. O solvente foi produzido pela UFC e, de acordo com a professora Valderez Ponte Rocha, sua síntese é simples e envolve reagentes precursores de baixo custo e condições brandas. “Ele pode ser produzido no ambiente industrial facilmente”, explica. Os pesquisadores pretendem, no futuro, realizar estudos de elevação de escala e de viabilidade econômica para o reagente. Para provar a eficiência do líquido iônico, a Embrapa caracterizou o reagente, bem como os resultados dos processos. Os pesquisadores observaram que ele é quimicamente e termicamente estável.
A nova solução pode ser testada no aproveitamento de outros materiais lignocelulósicos. Uma das grandes vantagens do método é a possibilidade de reaproveitamento do líquido iônico, o que pode reduzir custos e impacto ao meio ambiente.

Referências:

Artigo original do site SF Agro | Farming Brasil: https://sfagro.uol.com.br/bagaco-do-caju-pode-ser-reaproveitado-pela-agroindustria/

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