BACTÉRIAS QUE FABRICAM PLÁSTICOS BIODEGRADÁVEIS

“São os seres vivos mais antigos da Terra e provavelmente os mais numerosos, mas continuamos a aprender com eles. Ou melhor, com elas, as bactérias. Desta vez, na prevenção de uma praga que se está a espalhar por mares e continentes: os resíduos de plástico”.

Maria Reis, professora catedrática da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Universidade Nova de Lisboa, lidera no Departamento de Química (na unidade UCIBIO) uma equipa de 36 investigadores e técnicos — o Grupo Bioeng — que está a transformar as bactérias, microrganismos unicelulares, em autênticas fábricas de plástico. Só que o material produzido tem uma diferença radical em relação ao que contamina a Natureza: é biodegradável, decompondo-se em água e dióxido carbono ao fim de três a quatro semanas, contra as centenas de anos que os cientistas estimam para a decomposição dos plásticos convencionais, fabricados a partir do petróleo.

O mais surpreendente é que estas bactérias produzem plásticos a partir de resíduos que de outra forma teriam de ser tratados ou incinerados, com elevados custos. Soro de leite, resíduos de concentrados de fruta, lamas das Estações de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) e resíduos sólidos urbanos são consumidos pelas bactérias. Dentro delas ou nas suas paredes formam-se, então, polímeros, isto é, aglomerados de moléculas. Ou são simplesmente expelidos.

Os resíduos são colocados em biorreatores, recipientes fechados onde se dão reações químicas envolvendo as bactérias, que depois produzem biopolímeros. Os que se formam dentro das bactérias (intracelulares) são conhecidos por um nome extenso, complicado e difícil de fixar: Polihidoxialcanoatos (PHA).

Os biorreatores operam através de um processo seletivo curioso, conhecido por “modo de fome e fartura”. Como esclarece a investigadora, “há dois ciclos de alimentação por dia: alimentamos as bactérias com resíduos durante uma hora — o período de fartura — e depois passam por um período de fome de 10 a 11 horas. Assim, quando as alimentamos de novo, consomem os resíduos para prevenirem futuras situações de fome e produzem internamente polímeros”.

Os biopolímeros formados nas paredes celulares são obtidos através da levedura Komagataella pastoris. E os excretados pelas células (extracelulares) chamam-se exopolisacáridos e são produzidos pela bactéria Enterobacter A47 depois de alimentada com glicerol, um subproduto do biodiesel, ou outros resíduos alimentares. Os dois tipos de biopolímeros estão protegidos por várias patentes internacionais e podem ser usados na indústria cosmética, farmacêutica e alimentar.

A equipe de Maria Reis está envolvida em vários projetos europeus, que integram instituições de outros países da UE. Mas o financiamento total atribuído ao Grupo Bioeng para a sua participação atinge cerca de três milhões de euros durante três anos. “Os convites para estes projetos têm surgido porque o nosso grupo é reconhecido e nível internacional”, constata a investigadora. “São projetos que se baseiam no uso de resíduos e no conceito de economia circular. O seu objetivo é tratar estes resíduos e criar valor a partir deles, o que significa que passam a ser matérias-primas”.

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