OS DESAFIOS DA INDÚSTRIA ALIMENTÍCIA

Atualmente, as pessoas estão cada vez mais críticas com o que comem. Isto quer dizer que estão mais atentas à composição dos alimentos e mais conscientes com o desperdício. E aí, qual é o papel do Engenheiro Químico e da Indústria de Alimentos no que diz respeito a garantir alimentos mais saudáveis, evitar desperdícios e tornar a alimentação algo não só prazeroso e prático, mas também saudável e ambientalmente correto?

É impossível negar a importância da indústria alimentícia. E quando se fala em indústria alimentícia, não podemos esquecer que ela engloba toda a cadeia e a logística desde o cultivo até o consumidor, já que hoje boa parte da agricultura e criação de gado, por exemplo, são controladas por grandes empresas. Mesmo que não sejam elas as responsáveis diretas, são elas que muitas vezes estabelecem os padrões para que possam comprar de determinado produtor.

Por ser uma indústria que afeta diretamente o consumidor e o meio ambiente, a indústria alimentícia é, por vezes, alvo de debates, críticas e controvérsias. Apesar disso, ainda há muita desinformação, visões simplistas e pessoas querendo garantir seus interesses de ambos os lados. Infelizmente, ainda são poucas as pessoas que têm conhecimento no ramo e conseguem fazer uma análise racional e promover um debate racional e saudável entre ambos os lados. A grande maioria da população apenas adquire uma visão simplista, muitas vezes espalhada pela mídia e acaba comprando a briga de um dos lados sem ter informações relevantes para tal.

O objetivo deste texto é falar de alguns dos principais problemas enfrentados hoje no que diz respeito à alimentação, os desafios da indústria alimentícia e seu futuro e promover o pensamento crítico em relação a alguns fatos e conceitos.

Um dos maiores problemas enfrentados na atualidade é o desperdício de comida. E enquanto geralmente associamos o desperdício de comida a quando temos que jogar fora algo que estragou em nossa geladeira, o problema é bem mais complexo e tem proporções bem maiores.

O problema é tão grande que a UN Food and Agriculture Organization estima que cerca de um terço de toda a comida produzida por ano é perdida ou desperdiçada. Os níveis são tão alarmantes que a pressão pública está levando grandes companhias a atacarem o problema de forma a minimizar os desperdícios e perdas de comida na jornada “da fazenda ao garfo”. Em países em desenvolvimento, a maior parte do desperdício de comida vem de um processo de logística ineficiente, desde a colheita até a distribuição e isso muitas vezes se deve a uma infraestrutura de transportes ineficiente. Nos países desenvolvidos, por outro lado, o maior desperdício de comida ocorre por parte do consumidor.

Nesse sentido, uma discussão muito grande diz respeito à embalagem dos produtos alimentícios. Enquanto cada vez mais busca-se reduzir embalagens desnecessárias, muitas vezes plásticos envolvendo frutas, legumes e verduras são vistos como supérfluos. No entanto, eles ajudam a conservar o alimento, mantendo-o fresco por mais tempo, não só durante o transporte, mas também nas prateleiras dos supermercados. Muitos “ataques” da mídia e de pessoas em geral às embalagens são simplistas, pois não levam em consideração o ciclo de vida completo do produto. Por um lado, a falta de embalagens sem dúvida gera menos lixo diretamente, mas, nesse caso, pode acabar acarretando mais lixo pela má conservação de alimentos que terão que ser jogados fora antes mesmo de terem a chance de chegar ao consumidor. Nesse caso, além do alimento em si, toda a energia para produzir o alimento e transportá-lo também terá sido um desperdício.

Além do desperdício, um dos grandes alvos de críticas da indústria alimentícia diz respeito à composição dos alimentos e cada vez mais governos têm tomado medidas para forçar empresas a reduzirem teores de açúcar, sal e gorduras em seus alimentos. A obesidade e outros problemas associados ao alto consumo de alimentos ricos em açúcares, gorduras e sal são considerados um problema de saúde pública em muitos países, principalmente em países em que o hábito de cozinhar em casa diminuiu e o hábito de consumir alimentos ultraprocessados aumentou. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, os índices de obesidade triplicaram desde 1975, sendo ainda mais alarmante o aumento de obesidade infantil no mesmo período.

Esses aumentos nas taxas preocupam governos, que temem que seus gastos com saúde pública aumentem muito devido a doenças associadas. Por isso, a OMS incentiva medidas que tenham como objetivo promover uma alimentação mais saudável e reduzir o consumo de alimentos altamente açucarados. Em muitos países, boa parte das leis diz respeito à limitação de propagandas para crianças.

Mesmo que as crianças sejam, a princípio, mais afetadas por propagandas, por não terem, ainda, desenvolvido o pensamento crítico para suas escolhas saudáveis, muitas das reclamações dos consumidores em geral dizem respeito à falta de informações nos produtos industrializados, que muitas vezes contêm rótulos que não são claros. Além disso, embalagens apelativas, que muitas vezes dizem que o produto é natural, orgânico e saudável, acabam mascarando o que realmente está por trás da lista de ingredientes e pessoas leigas na área acabam ficando confusas entre o que é comida de verdade, o que são ultraprocessados e o que devem ou não consumir.

Além disso, existe ainda o caso dos alérgenos que levou a uma campanha chamada “Põe no Rótulo”, sobre a importância de rótulos claros e que informem quando um alimento contém traços de componentes alérgenos, tais como ovos. A falta de informação é um assunto tão polêmico que a Royal Society of Public Health chegou a sugerir que as embalagens dos alimentos contenham a quantidade de exercícios necessária para queimar as calorias contidas naquele alimento, alegando que isso faria as pessoas pensarem mais antes de consumir determinado alimento.

De fato, conforme os governos começam a levar mais a sério os regulamentos em relação à composição dos alimentos e às informações contidas nos rótulos das embalagens, muitas grandes empresas estão buscando voluntariamente criar mudanças, reduzindo teores de açúcares, gorduras e sal e também procurando alternativas para o açúcar, com opções mais saudáveis, como a stevia, não só para atender a legislações mais rigorosas mas também para atender à demanda de consumidores mais críticos.

No entanto, existem ainda grandes desafios a serem superados, já que existe um limite para a redução de tais componentes sem afetar o sabor e a textura dos alimentos. Algumas indústrias chegam a argumentar que seus produtos possuem altos teores de açúcares, sais e gorduras porque não são produtos feitos para serem consumidos diariamente. Ainda assim, esse é um longo debate.

Por último, um dos alvos de crítica da indústria alimentícia, sobre o qual ainda há, também, muita desinformação, está relacionado ao uso de alimentos geneticamente modificados. No próximo texto falaremos sobre Organismos Geneticamente Modificados para você que ainda tem dúvidas sobre essa tecnologia.

Os maiores problemas dos organismos geneticamente modificados não é a tecnologia em si, mas a logística e a forma como o negócio muitas vezes acaba sendo utilizado em prol do interesse de grandes corporações. Na verdade, se utilizada de forma consciente, a tecnologia dos chamados GMOs pode até ser aliada para a criação de um sistema de produção de alimentos mais sustentável. Organismos resistentes a pragas, por exemplo, tornam os cultivos mais eficientes e assim, podem reduzir a quantidade de terras que precisam ser utilizadas para que no final se obtenha a mesma quantidade de alimentos. Da mesma forma, podem auxiliar na redução do uso de agrotóxicos, outro alvo de bastante controvérsia dentro desse ramo.

Embora em parte seja verdade que, sem o uso de agrotóxicos, a agricultura teria tido mais dificuldade em se desenvolver de forma tão rápida para atender às demandas de consumo de uma população crescente em ritmo acelerado, é preciso pensar em alternativas. Hoje em dia há muita tecnologia para tentar encontrar alternativas para produtos que, sabidamente, causam danos à saúde dos consumidores bem como de quem utiliza tais agrotóxicos.

Como podemos ver, há, ainda, muitas controvérsias envolvendo as indústrias alimentícias. O papel do Engenheiro Químico, junto com o Engenheiro de Alimentos está não só em auxiliar no desenvolvimento de alternativas mais saudáveis e criar logísticas de produção mais sustentáveis, mas também em informar a população para que elas possam fazer escolhas mais racionais, isto é, para que, ao menos, elas saibam o que estão consumindo e assim sua escolha entre consumir ou não seja, de fato, uma opção. Assim como no caso das embalagens, é preciso que haja sempre um balanço e analisar o ciclo de vida do produto como um todo é essencial antes de condenar determinada ação.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Financial Times. Special Report Future of the Food Industry;

World Economic Forum. As the world fights plastic waste, could food waste be next?;

Kurzgesagt – In a Nutshell. Are GMOs Good or Bad? Genetic Engineering & Our Food.

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