BetaEQ Talks – INDÚSTRIA 4.0 NA BRASKEM

 “Meu nome é Lívia Tizzo, sou graduada em engenharia química pela UFU, me formei em 2009. Depois iniciei um mestrado em controle de processos na Unicamp, mas não o concluí, pois comecei a trabalhar na Braskem em Paulínia como engenheira de automação no final de 2010. Fiz também uma pós-graduação na Unicamp em 2012 em Gestão Estratégica da Produção.

Na Braskem, já trabalhei em plantas de polipropileno, polietileno e químicos básicos, sempre no estado de São Paulo e com algumas atuações transversais no Rio de Janeiro. No final de 2018 fiz transição para área corporativa da automação, e hoje sou SME (Subject Matter Expert), trabalhando principalmente com indústria 4.0, conectando a estratégia da empresa à realidade das plantas industriais.”

1) O que você acha que foi essencial, e que te ajudou a entrar para o mercado de trabalho?

R: Eu entrei na Braskem como engenheira júnior e considero que estava com o “bilhete na mão” quando o trem passou. Eu sempre fiz iniciação científica em modelagem e controle e escolhi um mestrado também nessa área pela grande afinidade que tinha com o tema. Então, quando soube da vaga que a Braskem estava abrindo, percebi que o perfil que eles buscavam era exatamente o que eu tinha como qualificações e eu estava me sentindo muito preparada e autoconfiante. Acho que essa escolha de direção foi fundamental para que eu me adequasse perfeitamente à vaga na qual fui contratada.

2) Por que você escolheu a área de automação e controle de processos?

R: Por afinidade com as disciplinas mesmo. Eu sempre gostei de algoritmos, programação, modelos e quando comecei a disciplina de controle, no último ano da graduação, já tinha estudado um pouco da teoria na iniciação científica. O meu professor e orientador naquela época também era (e ainda é) uma pessoa que eu admirava muito. Eu acredito muito que a gente pode se espelhar em pessoas que nos inspiram para percorrer nossos caminhos pessoais e profissionais.

3) Fale um pouco sobre algumas experiências que você teve como profissional de Engenharia Química dentro do setor de automação e controle de processos.

R: Eu sempre trabalhei com foco em melhorias nos controles de processo buscando otimizar índices de desempenho de produção: redução de uso de energia, aumento de produção, melhoria de especificação de produtos, etc. Então, por mais que eu sempre tenha atuado na engenharia de automação, meu papel de engenheira química sempre foi muito relevante pelo conhecimento dos processos e fenômenos termodinâmicos e cinéticos, por exemplo. E eu me especializei bastante em controle avançado de processos, que usam modelos fenomenológicos ou identificados para prever o comportamento futuro e preventivamente agir nas variáveis manipuladas (tipicamente vazões) para prevenir perdas de especificação, produção ou energia. É uma área que eu realmente amo e voltaria e trabalhar com isso a qualquer momento!

4) Na Braskem, qual é o principal parâmetro de controle no processo de produção? Ocorrendo um erro no controle, quais os prejuízos estimados?

R: Depende muito do processo. No geral, acompanhamos se as malhas de controle estão nos modos corretos, ou seja, se estão em malha fechada na maioria do tempo, pois queremos evitar que os operadores tenham que fazer ações manuais (isso pode ser muito trabalhoso e com certeza será sub-otimizado). Depois, acompanhamos também se as malhas estão com bons índices de desempenho quanto à variabilidade, por exemplo. Todos estes índices podem ser obtidos em sistemas dedicados a este tipo de análise e relatórios e eles podem também ser ou não relacionados a parâmetros de desempenho do processo, como os que eu já citei: economia de energia, nível de produção, especificação e composição dos produtos, etc. Erros no controle são pouco comuns, mas podem acontecer, e os danos dependem muito do processo que estamos avaliando. Vale lembrar que não temos apenas danos relacionados à produção, mas também à segurança dos processos, na qual as malhas de controle podem até atuar como barreiras de proteção nas análises de Hazop e LOPA, por exemplo.

5) Nós vimos que você está trabalhando hoje com o tema de Transformação digital e Indústria 4.0. Fale um pouco sobre as experiências que você está tendo nessa área, e como participar efetivamente das mudanças na empresa em que atua?

R: Eu hoje estou realmente em imersão neste tema. Meu papel é trabalhar muito perto do time de transformação digital, que tem uma atuação corporativa na Braskem e avaliar com eles quais são as reais necessidades de transformação que nossas plantas enfrentam. Inovar em digitalização significa transformar os processos da nossa cadeia de valor atacando os problemas que atualmente nos impedem de ser mais flexíveis e adaptáveis a mudanças. Por isso, características como predição de falhas e modelagem de qualidade de produtos usando machine learning são uma das principais aplicações quando falamos de indústria 4.0 nas plantas. Para entender e participar efetivamente da transformação digital, é preciso ficar atento às macrotendências tecnológicas e conectá-las aos problemas que precisam ser resolvidos na prática, evitando que busquemos um show room de tecnologias sem saber ao certo quais as dores estão sendo sanadas.

6) Quais caminhos você acredita que um recém-formado em Engenharia Química deve tomar para estar alinhado à tendência 4.0? Como manter-se atualizado?

R: Atualização neste assunto de transformação digital e indústria 4.0 é muito democrática. Existem inúmeros artigos e materiais que podem ser acessados na internet e cursos online usando plataformas muito acessíveis como Coursera ou Udemy, etc. Estar atento às tendências é muito importante, mas também não se deve ignorar o conhecimento básico esperando que a tecnologia resolva tudo. Muitas indústrias no Brasil ainda sofrem com infraestrutura básica de conectividade, por exemplo. Então, para não se frustrar, saiba o que é possível ser feito hoje com tecnologia de ponta e tenha em mente que talvez a empresa que você vai trabalhar não esteja tão atualizada assim, mas você pode ser o agente desta mudança.

7) Sabe-se muito sobre as vantagens da implantação da Indústria 4.0, mas quais seriam as desvantagens?

R: Enxergo desvantagens apenas se o uso do termo indústria 4.0 for empregado pelo jargão por si só. Existem uma série de problemas básicos que ainda podem e devem ser resolvidos com tecnologias “3.0”, com automação pura e simples. Algumas pessoas estão usando o termo 4.0 como estratégia e marketing para vender produtos que já existem no mercado há alguns anos. Temos que tomar cuidado e saber exatamente qual ferramenta usar para solucionar os problemas que enfrentamos atualmente, caso contrário corre-se o risco de desperdiçar recursos e investimentos usando uma “bazuca para matar uma formiga”.

8) Comparado a outros países, você acha que o Brasil está preparado da mesma forma para a Indústria 4.0?

R: Não. Ainda temos muitos desafios para superar e o primeiro deles é a infraestrutura básica de conectividade de dados e a qualificação das pessoas. Além disso, não há transformação digital onde não se fomenta inovação para deixar mais acessíveis as novas tecnologias.

9) Fale sobre um desafio que você enfrentou dentro da sua profissão, e o que te ajudou a ter êxito nele.

R: Um grande desafio foi a implementação de controle avançado em colunas de destilação sem apoio de consultorias externas, fazendo todo o trabalho internamente com o conhecimento e experiência que tinha alcançado. Eu estava muito motivada para chegar a um ótimo resultado da aplicação e fiz questão de manter todas as pessoas bem informadas e pedir os apoios necessários, envolvendo cada pessoa para que todos fossem parte do resultado final. Não poderia ter alcançado um sucesso maior. Foi muito gratificante.

10) Deixe aqui o seu conselho para alunos de engenharia química que desejam ter uma carreira de sucesso.

R: Tenha em mente seus objetivos e a visualização de onde você quer chegar. Prepare-se para o momento em que a oportunidade bater em sua porta e, caso ela não bata, corra atrás dela. Saiba também que carreira industrial é algo com progresso moderado ou lento. O aprendizado necessário para subir alguns degraus na profissão é muito denso e existe paciência e dedicação. Por isso, para se trabalhar feliz e se manter motivado é preciso gostar (ou aprender a gostar) do que se faz!

11) Uma dúvida, na sua opinião, a Braskem tem preferência em contratar profissionais da Engenharia Química em vez de engenheiros de outras áreas?

R: Creio que não seja uma preferência, mas sim uma questão de necessidade de profissionais da engenharia química, afinal a Braskem é uma indústria química e petroquímica. Claro que para áreas como processo e produção estes são os profissionais mais contratados pela Braskem, mas também há espaço para engenheiros químicos na automação, logística, matéria prima, inovação, investimentos, projetos, qualidade, segurança, dentre outras áreas. Somos profissionais muito versáteis e, na minha opinião, um dos mais completos, por isso existe esta vasta área de atuação que podemos escolher.