QUÍMICA FORENSE I: A ORIGEM

Quem é fã dos filmes e séries de ação e suspense que falam sobre perícia criminal, certamente, já se perguntou como as análises químicas ajudam a decifrar crimes. As respostas são obtidas graças à junção de várias ciências, dentre as quais está a química forense. Quer entender um pouco mais sobre a Química Forense? Acompanhe-nos nesta série de textos!

A cobertura de diferentes crimes em noticiários jornalísticos, juntamente com os filmes e séries que criam enredos para conseguir decifra-los, tem apresentado ao público um diferente ramo da química, a Química Forense, grande aliada nos processos investigativos. Muitas pessoas ficam intrigadas ao ver casos sendo solucionados com procedimentos que parecem mágica.

O princípio das Ciências Forenses se deu pela utilização dos conhecimentos de diferentes áreas, tais como arqueologia, odontologia, patologia, biologia, criminalística, computação, engenharia, química e medicina aplicados na solução de perguntas de interesse jurídico.

A Química Forense, por sua vez, une conhecimentos a fim de analisar, classificar e determinar elementos ou substâncias encontradas em cenas de crimes ou que podem estar relacionadas a este. Em outras palavras, se trata de uma ciência que busca auxiliar na investigação e compreensão de como determinadas situações ocorreram através de análises orgânicas, inorgânicas, toxicológicas e sorologia. Entende-se ainda como um ramo singular das ciências químicas, pois trata de relacionar a área científica (química e biologia) e a humanística (sociologia, psicologia, direito).

A origem do uso dos conhecimentos químicos na investigação criminal é incerta, entretanto, algumas teorias apontam que o filósofo Democritus foi, provavelmente, o primeiro químico a relatar tais descobertas ao médico Hipócrates, na Grécia Antiga. Contudo, apenas em 1752, evidências químicas foram utilizadas como parte de provas em julgamento legal. Esse primeiro caso ocorreu na Inglaterra no julgamento de Mary Blandy, conhecida como assassina do pó do amor – matou o próprio pai por envenenamento.

Dentre os diferentes casos de crimes por envenenamento, a utilização de arsênio é historicamente famosa, pois foi uma substância muito utilizada na Idade Média para assassinatos com interesses políticos. Devido as características químicas do óxido de arsênio (solúvel, sem cheiro e gosto e difícil de ser detectado por análises químicas convencionais), por muito tempo ele recebeu o status de óxido do crime perfeito. Outra vantagem na utilização do arsênico era porque os sintomas do envenenamento poderiam ser facilmente confundidos com os da cólera.

Figura 1: Um dos sintomas do envenenamento por arsênio é o desenvolvimento do “Blackfoot Disease”, caracterizada por uma gangrena terminal causando manchas e bolhas escuras no pé.

No século XIX muitos pesquisadores procuravam uma metodologia que conseguisse identificar a presença de arsênio em cadáveres, dentre eles Mathieu Orfila, o “pai da toxicologia”, e James Marsh, precursor do “teste de Marsh”. Orfila se empenhou em tornar as análises químicas uma parte da rotina da medicina forense, estudando os efeitos de asfixia, exumação e decomposição de corpos. Em um dos casos atualmente ele apresentou evidências que a presença de arsênio no corpo exumado não poderia prover do solo, e que a morte analisada se deu por envenenamento proposital. Orfila deixou diversas colaborações para a ciência forense, dentre elas um Tratado de Medicina Legal.

James Marsh também foi uma figura de grande importância na química forense, em especial nos testes de detecção de arsênio. Em 1832, Marsh testemunhou como perito em um caso de assassinato e propôs a utilização de um teste que consistia em ministrar sulfeto de hidrogênio gasoso nos fluidos do corpo envenenado. Segundo Marsh, a coloração amarelada que aparecia na solução indicava a presença de arsênio. Apesar das evidências apresentadas, o júri inocentou o réu, pois não considerou que o teste proposto fosse confiável. Diante das dúvidas sobre a sua metodologia, Marsh se empenhou em desenvolver um novo teste, ainda mais confiável, com elevada sensibilidade, que ficou conhecido como “teste de Marsh” e é utilizado até hoje.

Figura 2:Montagem experimental para o teste de Marsh. Ácido sulfúrico é adicionado a zinco metálico e uma solução de óxido de arsênio (III). O hidrogênio produzido reage com As2O3, produzindo arsina (AsH3). Por aquecimento, a arsina decompõe-se em arsênio elementar, de aspecto metálico, e hidrogênio gasoso.

Um dos casos de grande repercussão que marcou a fase inicial da Química Forense, em sua essência, ocorreu em 1850 no Castelo de Bitremont, Bélgica. O conde Hippolyte Visart de Bocarmé era suspeito de ter assassinado o cunhado Gustave Fougnies. A principal tese era que o conde teria extraído óleo da planta do tabaco e, juntamente com a condessa, teria obrigado Gustave a ingerir a substância. Era preciso encontrar evidências que comprovasse a preparação do veneno no laboratório do conde para solucionar o caso. O químico francês Jean Stas foi convocado para trabalhar no caso e conseguiu desenvolver um método químico para detectar a nicotina nos tecidos do cadáver. Diante das evidências, o conde foi condenado por assassinato e, como sentença, foi executado na guilhotina.

Figura 3: Químico francês Jean Stas.

Hans Gross (1847 – 1915) faz parte do primeiro grupo de estudiosos que compreendeu a importância de incorporar diversas áreas do conhecimento (química, física, botânica, toxicologia, geologia, etc) às questões judiciais. Gross se dedicou ao estudo das ciências para entender as suas interligações, sendo considerado por alguns historiadores como o fundador da criminologia.

Outro nome de peso na ciência forense é Edmond Locard (1877 – 1966), que se dedicou à medicina legal e aos estudos de criminalísticos. Através do seu auxílio, foi construído o primeiro laboratório cientifico da polícia em Lyon. Além de publicar um tratado de criminalística, foi o responsável pela frase “todo contato deixa um rastro”, formulada como “princípio da troca”.

Através dos estudos desses cientistas, e tantos outros gênios, é que foi possível disponibilizar a Polícia Técnica mundial as técnicas e equipamentos utilizados hoje. Atualmente, técnicas mais sofisticadas como cromatografia, espectroscopia, espectrometria, calorimetria, papiloscopia e termogravimetria são utilizadas para identificar substâncias encontradas na cenas dos crimes, tais como manchas orgânicas (sangue, esperma, fezes, vômito, etc.), manchas inorgânicas (lama, tinta, ferrugem, pólvora, etc.), evidências como fios de cabelo, peças de vestuário, poeiras, cinzas e impressões digitais.

Os métodos forenses ainda são muito restritos à Polícia Científica no Brasil, porém é possível notar o aumento das contratações de peritos particulares para atuar em casos de investigações criminais, ou ainda, em investigações internas de empresas ou associações desportivas. Os peritos forenses podem atuar tanto em laboratórios ou em campo, contudo, o perito de campo não necessita ter formação em química.

Ainda que a química forense seja conhecida pelo seu uso em investigações criminais, ela não se restringe aos casos policiais. A ciência forense também possui aplicabilidade em pareceres de decisões de caráter judicial, em questões trabalhistas (determinando a periculosidade e insalubridade das atividades), perícias industriais (analisando o espaço físico e os equipamentos), na detecção de adulterações em combustíveis e bebidas, no uso de drogas ilícitas, em perícias de alimentos e medicamentos, em perícias ambientais (avaliando possíveis danos causados por pessoas ou empresas ao meio ambiente), como também na investigação do doping esportivo.

Figura 4: ABCD faz estudo junto à CBF com campeonatos, clubes e número de atletas espalhados pelos estados brasileiros

O químico forense deve ser um profissional versátil. É imprescindível que além dos conhecimentos em analítica e habilidade em manipulação de instrumentos, o profissional deva ter um sólido conhecimento nas diferentes áreas da química e também em áreas relacionadas, como biologia, física, geologia, criminalística, toxicologia e noções de medicina. O perito deve ter embasamento suficiente para decidir qual será o tipo de análise a ser realizada com o material disponível, como também decidir quando é necessário buscar provas ou amostras adicionais ou complementares.

A necessidade de realizar a perícia em ambientes não-controlados, faz com que os profissionais busquem o desenvolvimento de técnicas e equipamentos melhores, mais eficientes, baratos, para não comprometer a confiabilidade das análises e o futuro de um julgamento. Diante deste cenário, o perito forense precisa manter-se permanentemente atualizado.

Diante de tantas curiosidades a respeito dessa área tão fascinante, nada melhor do que entender um pouco mais sobre as ferramentas e técnicas forenses. Assim, nos próximos episódios iremos explorar todos esses fatores, ajudando você, caro leitor, a desvendar um pouco mais desse ‘mundo investigativo’ rodeado de mistérios, e que tem ganhado grande destaque e relevância dias atuais.

REFERÊNCIAS

Química Forense

Descubra a importância da química forense

Stas Jean Servais Young

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Química forense: a utilização da química contribuindo na solução de crimes

A UTILIZAÇÃO DA QUÍMICA FORENSE NA INVESTIGAÇÃO CRIMINAL