QUÍMICA FORENSE III: TÉCNICAS FORENSES

A química forense é fascinante. Quantas vezes não ficamos impressionados quando os peritos da ficção descobrem vestígios de sangue apenas borrifando um líquido “mágico”? Vamos entender como toda a mágica acontece?

Como discutido em episódios anteriores, o trabalho de um químico forense resume-se basicamente na análise de amostras colhidas durante a investigação, provenientes dos locais de crimes e ocorrências. O principal objeto é identificar materiais e conhecer a sua natureza. Assim, muitas análises colorimétricas, espectrométricas e cromatográficas são utilizadas rotineiramente para identificar substâncias, realizar testes de doping, constatar falsificação de produtos, etc.

Os Exames Metalográficos, que fazem uso de reagentes específicos, podem ser utilizados para identificar adulteração de chassis e armas. Outras técnicas bastante utilizadas durante os procedimentos de perícia são: a Balística Forense, a Datiloscopia Criminal, os Exames de DNA e a técnica do Luminol na identificação de existência de sangue. Neste episódio iremos discutir sobre as principais técnicas forenses.

Balística Forense

Área forense especializada nas análises de armas de fogo, as munições e os efeitos por elas produzidos. O objetivo central dessa área é esclarecer dúvidas sobre um disparo e seu autor. É possível identificar, por exemplo, a arma pela pólvora e o atirador pela arma e por vestígios do disparo nas mãos do suspeito. Informações como a trajetória da munição e a distância do disparo podem esclarecer dúvidas importantes do caso.

O Confronto Microbalístico é utilizado quando se deseja comparar o projétil da arma do suspeito com o projétil que atingiu a vítima. Nesse teste, um projétil da arma suspeita é disparado contra um tanque, e, logo após, os projéteis são comparados microscopicamente. As imperfeições, diferenças de densidade e de dureza do aço existente na parte interna do cano da arma cria uma espécie de “impressão digital” no projétil, que passa a incorporar marcas e microestriamentos em sua superfície.

Figura 9: Confronto balístico entre projéteis.

Além de identificar a arma utilizada no crime, através do Exame Residuográfico, é possível ainda identificar se um suspeito efetuou ou não disparos. Durante o disparo, resíduos sólidos e gasosos provenientes do projétil e da explosão da pólvora são expelidos e ficam depositados no atirador.

A elevada temperatura e pressão proporcionada durante o disparo faz com que os elementos da munição sejam vaporizados e condensados rapidamente. A nuvem gasosa formada no disparo é composta principalmente por bário, antimônio e chumbo. O exame residuográfico consiste então na identificação de íons ou fragmentos metálicos de chumbo nas mãos do suspeito. Uma fita adesiva é colocada na mão do suspeito, e, logo após, essa é fixada em um papel filtro. Uma solução de rodizonato de sódio é borrifada sobre o papel, e, caso apareçam pontos de coloração avermelhada, o resultado do exame será positivo.

Figura 10: Exame residuográfico com a formação avermelhada do rodizonato de chumbo.

Datiloscopia Criminal

Trata-se do processo de identificação através dos vestígios papilares, ou impressões digitais. É possível classificar as impressões digitais em dois tipos: as visíveis (originadas quando mãos sujas tocam uma superfície) e as impressões papilares latentes (não são vistas a olho nu, sendo marcadas nas superfícies pelo suor). Depois de evidenciada a impressão digital, são realizadas as comparações das evidências com as digitais dos suspeitos.

A visualização das impressões ‘ocultas’ pode ser realizada por diferentes técnicas, como a Técnica do Pó, do Nitrato de Prata e da Ninidrina, por exemplo. A Técnica do Pó é a mais utilizada pelos peritos, contudo, só é considerado eficientes em superfícies lisas, como vidro e metal, e em superfícies porosas, como papel e madeira sem tratamento). Com um pincel macio é aplicado um pó fino (óxido de ferro, dióxido de manganês, negro-de-fumo, óxido de titânio ou carbonato de chumbo) sobre a superfície, e por forças de Van der Waals e ligações de hidrogênio o pó se adere à gordura do suor, formando as impressões latentes.

A técnica do nitrato de prata é indicada para superfícies porosas, tais como plásticos e madeiras sem acabamento. O fundamento dessa metodologia está na reação de dupla troca que ocorre entre o nitrato de prata e o cloreto presente no suor da impressão oculta, formando o precipitado insolúvel de cloreto de prata. Uma solução em spray do nitrato de prata é borrifada na superfície e as digitais podem ser reveladas por uma lanterna aceleradora de nitrato de prata. Após a revelação, a impressão deve ser fotografada antes que toda superfície escureça.

De modo semelhante, na técnica de revelação por ninidrina ocorre pulverizando a solução na superfície do material. Quando a superfície estiver totalmente seca a impressão é revelada na coloração roxa (reação da ninidrina com o aminoácido presente no suor).

Figura 11: Revelação de digital pela técnica de ninidrina.

Luminol (5-amino-2,3-dihidro-1,4-ftalazinadiona)

Provavelmente esta é a técnica que popularizou a química forense ao revelar vestígios de sangue nos locais de crime. O Luminol possui a capacidade de revelar a presença de sangue em áreas limpas há seis anos atrás. Após pulverizar a solução de Luminol no local suspeito, a luminosidade do local deve ser reduzida para que seja observada a presença de uma luz fluorescente, indicando resíduos de sangue no local.

Figura 12: Indicação da presença de sangue no local pela reação com a solução de Luminol.

A luz fluorescente ocorre quando há a reação química do Luminol com um agente oxidante no sangue. O peróxido de hidrogênio é o agente oxidante mais utilizado, contudo há a necessidade de um meio aquoso e um catalisador, metal. Neste caso, o catalisador utilizado é o íon ferro presente no sangue.

Na reação quimiluminescente, o reagente possui energia suficiente para levá-lo ao estado de transição, que possui energia superior ao estado eletrônico excitado do produto. Logo após, o produto no estado excitado perderá a energia excedente na forma de luz, retornando ao seu estado fundamental.

A formulação do Luminol passou por algumas modificações e melhorias com o passar do tempo. Inicialmente, era necessário utilizar câmera de visão noturna para fotografar as manchas, contudo, no ano 2000, o pesquisador Jean-Marc Lefbre Desplaux propôs uma nova fórmula que dispensa o uso desse tipo especial de câmera.

Atualmente o Luminol é fabricado no exterior e distribuído para o resto do mundo com um preço relativamente alto. No Brasil, um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) propuseram um reagente à base de Luminol, mais barato, com a presença de nióbio.

Essas e outras técnicas de química forense, juntamente com muito raciocínio lógico e o conhecimento da ciência forense como um todo, auxiliam os peritos a desvendarem enigmas durante os processos investigativos.

Agora que sabemos um pouco mais sobre a mundo forense, podemos notar a importância do conhecimento químico como ferramenta decisiva na investigação de questões jurídicas. Muitas técnicas antigas ainda são amplamente utilizadas com elevada eficiência. Contudo, o desenvolvimento de novos estudos, novas técnicas e novos conceitos voltados para a química aplicada possibilitam a obtenção de resultados cada vez mais precisos. É a ciência contribuindo para desvendar os mistérios que intrigam a mente humana.

Referências

A UTILIZAÇÃO DA QUÍMICA FORENSE NA INVESTIGAÇÃO CRIMINAL

A utilização da Ciência Forense e da Investigação Criminal como estratégia didática na compreensão de conceitos científicos

Química forense: a utilização da química contribuindo na solução de crimes

FUNCIONAMENTO DO LUMINOL E SUA UTILIZAÇA O PARA A IDENTIFICAÇA O DE SANGUE LATENTE

Química forense: utilizando métodos analíticos em favor do poder judiciário

A UTILIZAÇÃO DA QUÍMICA FORENSE NA INVESTIGAÇÃO CRIMINAL

Química Forense