BetaEQ Talks na Destilaria de Álcool Libra

Natalia Topanotti, Engenheira Química formada na Universidade Federal de Goiás e pós-graduanda em Gestão de Projetos pela ESALQ/USP. Atualmente supervisiona a produção de etanol de milho e seus coprodutos na Destilaria de Álcool Libra.

1- Como foi sua jornada dentro da graduação? O curso lhe ofereceu bons aprendizados?

R: Nenhum curso de engenharia é simples, e a engenharia química não poderia ser diferente. Foi um curso difícil de terminar, mas que me ofereceu muitos aprendizados. Durante a graduação sempre busquei conciliar os estudos com atividades extracurriculares (centro acadêmico, curso de línguas, iniciação científica, etc.) que me ajudaram a desenvolver habilidades de gestão, networking com os professores e profissionais da área e também descobrir áreas de interesse dentro da EQ.

2- Como foi sua experiência com o intercâmbio na University of Bremen na Alemanha? Você conseguiu acompanhar as aulas? Desenvolveu algum projeto? Quais foram as diferenças observadas por você comparando o ensino da Engenharia Química no Brasil e na Alemanha?

R: Minha experiência durante o intercâmbio foi muito enriquecedora. Consegui participar de algumas matérias e também participei de um projeto de iniciação científica. As aulas foram a maioria na língua nativa, então tive dificuldade em acompanhar. Mas com muita dedicação consegui boas notas. Senti muita diferença na carga horária que era menor do que a do Brasil, o estilo mais prático das aulas e também o comprometimento dos alunos com o curso (por exemplo as aulas não tinham chamadas e estavam sempre lotadas). A vaga que me candidatei na universidade era para desenvolver um projeto de iniciação científica com cerâmicas avançadas, que foi uma experiência muito diferente da minha pesquisa no Brasil. O apoio à pesquisa na Alemanha é muito maior, senti o impacto na qualidade dos equipamentos e o reconhecimento e suporte aos profissionais da área.

3- Quais são as principais diferenças no processo comparando uma destilaria de cana-de-açúcar e milho com uma usina de açúcar e álcool? Existem produtos excedentes no processo da destilaria? Para onde eles são encaminhados?

R: Hoje atuo em uma usina flex, que produz etanol de cana e de milho. A principal diferença é que no processo da cana todo açúcar da matéria-prima é destinado à conversão do etanol, e não há as etapas de produção açúcar. Além do etanol, a cana gera o bagaço que é destinada à queima na caldeira, a torta de lodo e a vinhaça que servem para adubação e irrigação do solo. O processo de fabricação do etanol de milho também gera a vinhaça que é rica em sólidos proteicos, os quais extraímos por um processo de centrifugação resultando no WDG (Wet Distillers Grain) e a vinhaça fina que pode ser realimentada no início do processo, o que chamamos de backset.

4- Quais são suas principais atividades como Engenheira Química na destilaria?

R: Hoje, como engenheira responsável pela produção do etanol de milho, minhas principais funções são acompanhar e supervisionar as etapas do processo, desde a moagem do milho até a saída dos produtos finais. Também sou responsável por buscar maneiras de aumentar o rendimento industrial, conduzir projetos de melhoria contínua, reduzir os custos e manter a segurança da equipe. De vez em quando é preciso saber fazer um balanço de massa, porém mais importante que lembrar como fazer, é saber onde encontrar os referenciais teóricos que aprendemos na faculdade.

5- Para o seu trabalho, existe uma meta a ser atingida para implantação de melhorias no processo? Poderia citar uma melhoria já realizada por você?

R: Sim, uma das minhas principais metas é reduzir a variabilidade dos parâmetros mais importantes da fermentação (% sólidos, temperatura, acidez, brix, °GL) e para isso eu uso ferramentas de qualidade como folhas de verificação, histogramas e cartas de controle.

6- De que forma você poderia pontuar o diferencial em ter conhecimento de Gestão de Projetos para o cargo de Engenheira Química na destilaria?  

R: O MBA em Gestão de Projetos é um curso super amplo e que tem aplicação em diferentes tipos de projetos. Ter conhecimentos em elementos básicos de projetos (cronograma, escopo, custos) me auxilia a supervisionar projetos de terceiros que ocorrem dentro da área.

7- Quais foram suas atividades como Engenheira Trainee? Acredita que as experiências como trainee te proporcionaram conhecimento que te auxiliam agora no cargo de Engenheira no processo de destilação?

R: Programas Trainees variam de empresa para empresa. Na empresa na qual fui trainee o foco era muito mais técnico, recebi um projeto para eliminar um gargalo na produção de açúcar da usina. Envolvia acompanhar as atividades e ocorrências do setor e propor uma solução junto com o meu gestor para garantir a melhoria contínua deste processo. Recomendo muito a participação de engenheiros recém-formados em programas de trainee, e recomendo também que busquem contatos com ex-trainees para entenderem qual é o escopo do programa de cada empresa.

8- A partir de suas experiências, acredita que a graduação de Engenharia Química na UFG por si só te preparou para a sua área de atuação? 

R: Até hoje estou aprendendo com as experiências do dia-a-dia. O curso me deu uma boa base de todas as operações unitárias e transformações físico-químicas que ocorrem no processo de fabricação do etanol, mas o real aprendizado ocorre quando colocamos tudo na prática. Recomendo aos estudantes da EQ que busquem ter fluência em pelo menos uma língua que não seja o português e também a buscarem cursos de gestão de pessoas. Pois ser engenheiro também inclui saber liderar e inspirar equipes.

Natalia Topanotti

nataliatopanotti@gmail.com