SABOARIA ARTESANAL

Segundo alguns historiadores o sabão foi inventado pelos fenícios de forma simples e primitiva quando ferviam água com banha animal e cinzas de madeira e assim obtinham o sabão pastoso. O sabão em barra só foi descoberto séculos depois quando misturando óleos naturais, gordura animal e soda cáustica os árabes descobriram a reação de saponificação (ESPOSITO; MILARÉ, 2011).

Neste texto iremos abordar aspectos envolvendo a química da saboaria artesanal, onde o principal conceito aplicado é o de reaproveitar gorduras e óleos que seriam descartados de maneira indevida e dessa forma contribuir para a preservação do meio ambiente, além de gerar renda para famílias. Nesse sentido, várias alternativas vêm sendo testadas e aperfeiçoadas com auxílio de conceitos da química. A reutilizar reutilização do óleo de cozinha que pode ser a principal matéria-prima na fabricação de sabão e na maioria das vezes é descartada de forma inadequada causando inúmeros prejuízos ambientais é uma alternativa muito utilizada (JUSTINO et al., 2011).

Para produzir o sabão em barra são utilizados quatro componentes básicos: gorduras ou óleos, soda cáustica ou hidróxido de potássio, óleos essenciais e água. Os óleos são compostos químicos originados a partir da reação entre o glicerol e ácidos graxos saturados ou insaturados, que apresentam cadeias longas, contendo um grupo carboxila em uma das extremidades, conforme representado na Figura 1 (DIAS, 2017).

Figura 1 – representação da reação de formação de um óleo. Fonte: DIAS, 2017.

Tanto o hidróxido de sódio (soda cáustica) quanto hidróxido de potássio são substâncias iônicas denominadas bases de Arrhenius, apresentam-se em estado físico sólido e são tóxicas e corrosivas, diferenciando-se pela coloração, onde a primeira apresenta aparência leitosa enquanto a segunda é transparente ou opaca. A soda cáustica é extremamente reativa e higroscópica, ou seja, absorve a umidade do ar e é mais comumente utilizada na fabricação de sabões (DIAS, 2017).

Os óleos essenciais são utilizados para fornecer um odor agradável ao sabão. Quimicamente falando, são substâncias que possuem grupos funcionais de alcoóis, ésteres e cetonas, além de terpenos que são compostos orgânicos que apresentam cadeias longas de dez a quinze carbonos (DIAS, 2017).

Reação química é uma transformação da matéria na qual ocorrem mudanças qualitativas na composição química de uma ou mais substâncias reagentes, resultando em um ou mais produtos (JUSTINO et al., 2011). O processo químico que dá origem ao sabão é denominado reação de saponificação. Nessa reação o óleo reage com o componente básico formando um sal e um composto orgânico, como pode ser observado na Figura 2 (DIAS, 2017).

Figura 2 – Representação da reação de saponificação. Fonte: DIAS, 2017.

O sal formado na saponificação apresenta uma região polar, destacada em vermelho e uma região apolar, destacada em azul conforme a Figura 3 (DIAS, 2017). Essa característica em sua estrutura molecular o faz capaz de se solubilizar tanto em meios polares quanto em meios apolares. Além disso, o sabão é um tensoativo, ou seja, reduz a tensão superficial da água permitindo maior contato das superfícies com o líquido (JUSTINO et al., 2011).

Figura 3 – Representação da estrutura molecular do sabão. Fonte: DIAS, 2017.

O processo de produção de sabão utilizando óleo reaproveitado deve iniciar com a filtração do óleo. Com o auxílio de um tecido de algodão serão retiradas as partes sólidas que estiverem presentes no óleo. Em seguida deve-se preparar a base, dissolvendo a soda cáustica ou hidróxido de potássio em água e então misturar os dois componentes, óleo e base (JUSTINO et al., 2011).

Figura 4 – Diferença entre sabões produzidos pelos métodos Hot Process e Cold Process. Fonte: Milk and Honey Soap.

A partir daí existem dois processos diferentes que podem ser utilizados na fabricação de sabões, o Hot Process e o Cold Process sendo o último mais conhecido e mais utilizado na saboaria artesanal. Algumas diferenças apresentadas entre os métodos são o tempo de cura do sabão e aparência final além do ponto principal que os difere, o fornecimento de calor que afeta o tempo de preparo. O Hot Process fornece calor para a mistura, que é aquecida a temperaturas de aproximadamente 80 °C utilizando-se o banho Maria para esse procedimento. Quando a mistura atinge a consistência de gel o aquecimento é encerrado, são adicionadas as fragrâncias e o sabão pode ser moldado para então seguir para a secagem e cura, onde perderá alcalinidade e umidade excessiva além de ganhar mais consistência. Essa etapa dura por volta de 7 dias. (ECYCLE, 2013).

Figura 5 – Sabões produzidos pelo método Cold Process. Fonte: Botanical Propaganda.

O Cold Process diferente do Hot Process não fornece calor para o processo de saponificação, logo após a mistura já são adicionadas as fragrâncias, a massa é moldada e levada para as etapas secagem e cura. Nesse método as etapas de secagem e cura, juntamente, podem durar de 45 a 60 dias, durante esse período a reação de saponificação continua e o sabão vai perdendo alcalinidade e umidade (ECYCLE, 2013).

As operações unitárias utilizadas no processo de produção de sabões são a secagem – sendo importante destacar a diferença entre secagem e cura, que são comumente confundidas, a secagem pode ser parte do processo de cura, porém não envolve reações químicas, trata-se de um fenômeno físico. – e a agitação. A secagem é uma das operações unitárias mais utilizadas na indústria química destinada à remoção de um líquido agregado a um sólido. A agitação é uma operação muito utilizada por empresas de grande e pequeno porte e tem o objetivo principal de movimentar misturas por meio de impulsionadores giratórios (FERREIRA, D. M. P.; VIGGIANO, L. C., 2017). 

Vale à pena ressaltar que a nível industrial o Hot Process é o método mais utilizado e cabe a engenharia química o acompanhamento e o controle desse processo, onde são avaliados diversos aspectos sempre respeitando as características físico-químicas de cada óleo, gordura e essência que é utilizado na formulação. Como pudemos observar no transcorrer do texto a fabricação de sabões de forma artesanal é em tese bem simples, no entanto envolve diversos processos que abrangem a engenharia química, muitos deles imperceptíveis aos olhos, mas de grande importância para a qualidade final do produto e outros que são operações utilizadas até mesmo por grandes indústrias em maior escala. A química está presente em vários aspectos de nossas rotinas, basta observar.

Referências Bibliográficas

ESPOSITO, D.; MILARÉ, T. A “Fabricação de Sabonetes e Perfumes Artesanais”, pelo método de Saponificação, para auxiliar na aprendizagem de conceitos químicos. 2011. 36 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em Química) – Universidade Estadual Paulista, São Paulo, 2011.

JUSTINO, A. L.; LAGE, M. M. R.; PEREIRA, T. G. G.; RODRIGUES, M. F.; SILVA, M. A.; ORLANDI, O.; MAIA, G.; SALES, A.; QUEIROZ, B.; OLIVEIRA, J.; CABRAL, M.; EPIFANIO, Y.; WALTER, M. E.; ABI-SABER, A. A engenharia de produzir sabonetes com óleo vegetal: uma produção sustentável. E-xacta, Belo Horizonte, v. 4, n. 2, p. 19-28. 2011. Acesso em: 30 abril. 2020.  

DIAS, D. L. Química do Sabonete. Mundo Educação. 2017. Acesso em: 30 abril. 2020.

ECYCLE. Dois tipos de receita de sabão. Ecycle. Acesso em: 02 maio. 2020.

FERREIRA, D. M. P.; VIGGIANO, L. C. Saponificação. 2017. 8f. Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2017. Acesso em: 03 maio. 2020.